quarta-feira, 14 de junho de 2017

A chuva, o filme e o suicídio

A chuva
Sexta-feira, muita chuva e frio, o telefone tocou: 

"Alô? Oi, como você está Mark?"
"Oi, bem e você Edu?"

Fez-se três segundos de silêncio, para continuar aquela conversa clichê. 

"Como sabes que sou eu? Troquei meu número esta semana."
"Ué, seu bobo! Te reconheci pela voz. E daí, vai vir hoje tomar aquele chocolate quente e ver o filme comigo?"
"Olha, nem sei se vou. Esta chovendo muito e eu, pobre do jeito que sou,só ando a pé lembra?"
"Dá nada. Te pego na esquina de guarda-chuva."

Edu era um cara incrível. Nada mais fantástico e intelectual que ver filmes junto ele. Edu era do tipo que todo mundo o queria por perto, mas ele nem fazia esforço para agradar e visitar seus amigos. Eu era uma exceção, e me sentia especial por conseguir chamar a sua atenção. Uma hora depois, novamente o telefone tocou.

"Mark, seu idiota, estou aqui na esquina todo ensopado. Cadê você?"
"Já vou. Não me apresse Edu, não te disse que ia te buscar? Então."

Desliguei o telefone na cara dele. Eu já me achava o centro de  sua atenção e também me considerava o seu melhor amigo, e isso me gerava uma certa - falsa - confiança de dizer - e gritar - o que eu bem entendesse, sem me importar se Edu iria ficar magoado. Saí de casa com dois guarda - chuvas na mão. Andei pela rua deserta e úmida. As noites chuvosas no subúrbio urbano, nos provocam inúmeras sensações. A de solidão, angústia e nostalgia eu podia sentir claramente. Mas era mais que isso, tinha a sensação que eu podia sentir o cheiro de tudo aquilo.

O filme
Chegamos em casa, peguei uma toalha e entreguei a Edu. Ofereci uma roupa minha para vestir. Estrategicamente, antes de sair de casa, já havia deixado sobre o sofá uma calça jeans, desgastada pelo enorme tempo de uso; uma camiseta branca, qual comprei na beira de uma estrada e uma blusa de moleton, que minha mãe me deu para que eu não passasse frio quando fosse pra Universidade. E claro, pra finalizar, por mais clichê que aquilo fosse, eu tive que colocar um pouquinho do meu perfume em cada peça daquela roupa. Acho que Edu nem percebeu todo aquele meu ritual. Nem agradeceu e nunca mais me devolveu aquela roupa. Nunca mais. Não deu tempo.

"Vamos ver o filme no meu quarto, lá tem ar-condicionado e é bem quentinho!"
"Melhor assim, senão pego um resfriado."

No quarto, encima daquele criado alguns retratos já esquecidos pelo tempo, mas não por mim. Também uma caixa de chocolates, que ganhei dois dias antes de uma moça que me paquerava na faculdade, e um filme qualquer - estrategicamente escolhido por mim - de ficção-cientifica.

"Sabe Mark, não sei por que mas gosto de sua companhia."
"Eu também gosto de você Edu."

No meio do filme, depois de quatro xícaras de chá quente e alguns chocolates, fui surpreendido pelo olhar de Edu. Era diferente. Ele nunca havia me olhado daquela forma. Não sabia como agir. Nunca soube. Não sei até hoje.

"Que foi Edu? Eu sei que sou lindo pra você ficar me olhando assim, e fique sabendo que também te acho bonito Edu!"

Edu desviou o olhar rapidamente e voltou a olhar para tela da tv. Alguma coisa o incomodava. Não fazia a menor ideia do que era. Nunca soube. Nunca vou saber.

"Mark,você é maluco ou o quê? Para de falar bobagens. Você sabe que não pode acontecer nada entre a gente. Você tem alguém, lembra?"

Sim, eu tinha alguém. Era esta a mentira que eu dizia para não assumir meu fracasso amoroso e minha dolorosa solidão. Um silêncio constrangedor invadiu o quarto - e a alma também - por algumas horas. Me senti envergonhado com todas minhas pretensões mentais. Créditos finais do filme. Último chocolate na caixa.

"Gostei do filme Mark."
"Sim Edu, a chuva já parou, e... Volte quando quiser."

Acompanhei até a porta, ainda estava constrangido. Dei tchau a Edu com um aperto de mão seguido de um abraço. Era como se fosse o último abraço. Era o último. Foi o último. Esperei ele desaparecer na esquina, úmida e melancólica, e fechei a porta.

"Mais uma vez sozinho. Não. Eu tenho alguém."

Pensei alto. Entrei no quarto, fechei a porta e me encostei na mesma, assim como fazem os atores nas cenas dramáticas dos filmes e novelas. Fui escorregando aos poucos até ficar sentado no chão do meu quarto. Ri descontroladamente e chorei. Adormeci.

O suicídio
Alguns meses depois, sem ninguém saber os motivos, meu amigo Edu cometeu suicídio. Desgraçado, nunca mais voltou para me devolver minha roupa, muito menos o meu coração. Deixou muitas saudades. Ainda lembro dele nestas noites de chuva e frio. Se ao menos eu acreditasse no céu e inferno, talvez um dia ainda poderíamos nos encontrar em algum destes lugares. 

sábado, 10 de junho de 2017

Conselhos de um gato, preto.

A aceitação vem de dentro.
Leia, mesmo que você não tenha pretensão de seguir este conselho


Humanos, um dos meus incentivos para continuar escrevendo neste blog é a possibilidade de poder ajudar tanta gente que está por ai e que podem estar passando pelas mesmas coisas que passei um dia. Um dia daqueles que me senti perdido e confuso.

Sabe, se eu ao menos tivesse alguém que me dissesse que tudo aquilo era normal e que as coisas ficariam melhores, teria sido muito mais fácil para mim. É muito bom poder compartilhar nossos medos e dores com alguém que tenha a capacidade de nos compreender. Nada mais calmante - durante o desespero esmagador - que um : "tá tudo bem  amigo, vai ficar tudo bem, amanhã ou depois isso passará. Até palavras como: "amigo, hoje é pior que ontem, mas pode ser melhor que amanhã", já serve para acalentar a alma desesperada - ou ferrar tudo de uma vez!

Um dia - ou uma noite, não sei - conversando com minha professora, questionávamos o que era a felicidade e o que era ser/estar feliz. Depois de algumas horas dialogando, não chegamos a lugar algum e, não descobrimos nada de novo sobre o assunto além do que vemos nos filmes, novelas e livros que contam histórias de amor e felicidade. Ela me olhou, sorriu, despediu-se e apenas disse: "Não sei,  sejamos felizes então. Pode não haver nada além do aqui-e-agora, então... Podemos descobrir que fomos enganados o tempo todo, vai saber..." A aceitação - da dor ou felicidade - vem de dentro de nós mesmos. 

Não há como esperar que as pessoas nos aceitem se nós não nos aceitamos primeiramente. É a mesma coisa que fazer as regras, mas não segui-las. Eu cheguei muito perto de fazer alguma besteira, no entanto consegui superar. Sim, foi difícil. Foi um processo longo e doloroso. Imaginem se todas as pessoas que estão no armário - entenda por armário qualquer empecilho, seja ele psicológico,  moral, religioso, politico ou social, que impedem você de viver o que realmente gostaria de ser -  decidissem viver em plena harmonia com sua vida/sexualidade?

Bem, acho que não podemos mais definir um padrão para a diversidade sexual pois, pela minha experiência, há muito mais pessoas do que nós podemos imaginar que querem explorar - ou já estão explorando - as outras faces da elasticidade que é a  sexualidade humana. 

Sejamos felizes então. Se não der hoje, tentaremos amanhã ou depois. Afinal, passaremos uma vida toda tentando acertar, não é?

sábado, 27 de maio de 2017

Sobre amor utópico

Numa conversa com um velho amigo, senti vontade de dividir com ele um mundo utópico criado - imaginado, inventado - por mim. Na verdade não passa de um desejo que, quando apresentado, logo de cara nota-se que jamais será humanamente possível de ser real ou um dia acontecer. Bem, para você entender do que realmente estou falando irei transcrever aqui alguns trechos de nossa conversa. Não foi bem com estas palavras, mas adaptarei para que seja entendida por todos:

Mark: "As pessoas precisam uma das outras para que as completem". Assim iniciei a conversa mais dramática da minha vida. "Eu busco alguém para dividir  coisas simples, como comer pipoca e ver um filme bobo -  drama ou terror. O importante é estar junto com alguém que seja desejado, não é? Falar de teorias e conspirações ou simplesmente sair na rua para ver e comentar sobre os homens bonitos que passam pela gente. Um alguém para dividir o que realmente estou sentindo. Sem mascaras e sem frescuras. Nossa, como eu queria isso!"

Amigo: "É Mark, eu também. Mas eu não encontro. Parece que ninguém me quer. Por isso muitas vezes me sinto sozinho e triste, e dói muito isso, sabia? Poxa, é demais pedir apenas uma pessoa para me amar de verdade?"

Mark: "Eu sei. Imagino que esta dor seja terrível mesmo. Destrói nossas almas - e corpos - silenciosamente. Mas amigo, andei pensando muito sobre isso. Um dia desejei uma besteira, daquelas bem boba mesmo. Queria que fosse possível isso: Já imaginou se Deus - ou uma força maior - nos desse um dom de curar a pessoa que a gente mais ama? Não me refiro a uma dor física, mas falo sobre as dores psicológicas ou espirituais que a solidão nos causam. Aquelas dores frias que a falta de alguém para amar nos trazem. Seria demais, não é? Mas, sei que isso é impossível, apenas uma utopia infantil e idiota. Boba e perfeita."

Amigo: "Nossa, e se isso fosse possível? Chego acreditar que é possível sim. Deus - ou esta sua força superior - nos deu este dom de curar as pessoas. E com uma coisa que já conhecemos - menos eu - e chama-se: "amor". Este sim é capaz de curar as pessoas."

Mark: "Meu amigo, já conversei sobre este "desejo" com muitas outras pessoas e a resposta é unânime: "ah,o amor é capaz de curar nossas dores espirituais e psicológicas; Ah, o amor isso, o amor aquilo... E segue comentários sobre o amor iguaizinhos aos contos de fadas."

Amigo: "Poxa vida. É mesmo?"

No final daquela tarde fria, alaranjada e melancólica, novamente me tranquei em meu quarto. "Uau, quantas certezas sobre o amor eu tenho. Devia ter orgulho de mim mesmo."  Mas não tenho, nem um pouco.

Depois desta conversa, comecei a me analisar profundamente. Eu sou um grande mentiroso. Um dissimulado de primeira linha. Cheio de dúvidas e frustrações. Será que o amor é mesmo um dom especial? Será que o ser humano esta tão insensível ou despreocupado - ou ocupado com outras coisas - que não consegue perceber isso?  Será que todos um dia irão encontrar o verdadeiro amor, aquele sem utopias e finais felizes? Afinal de contas, o que é e para que serve o amor?

Fracassado, eu já estou cansado de todo este blah, blah, blah romântico!

sábado, 29 de abril de 2017

"Hospitais e despedidas"

Das crônicas "Viagens de Um Menino Voador"
"Quando ele olhou para trás, para seu passado, novamente foi consumido pela dor e desapareceu. Desta vez não deu tempo nem de desabafar. Infelizmente seu amado não pode ver nem pela última vez o brilho dos seus olhos. Desapareceu por completo e com ele, toda e qualquer lembrança de sua vida aqui neste mundo. Ele era tudo e desapareceu."

A despedida

"Eu morri com o seu nome em meus lábios, por que não há mais nada a dizer. Não pude dizer mais nada. Eu dancei com você no corredor do hospital, em pesadelos provocados pela dor e febre. E mesmo com o cheiro do antisséptico hospitalar, pude apreciar os bombons que ganhei de ti no Dia dos Namorados. Em muitas noites de desespero, você me acalmou e me fez mergulhar em seus braços e, eu de bom grado, fechei os olhos e adormeci no seu peito.

Os remédios, as agulhas e os bisturis não me assustam mais. Só enquanto você estiver segurando a minha mão. Seus braços são meu abrigo e, enquanto eu estiver sob ele posso vomitar quantas vezes for necessário estas malditas pílulas paliativas e abstratas. Mesmo com meus pulmões enfraquecidos e com o coração dando suas últimas batidas, ainda assim tenho forças para fazer de ti uma grande e majestosa arvore. E no galho mais seguro construí meu ninho. Um ninho quente, confortável e seguro.

Várias vezes ao dia, entram em meu quarto enfermeiros e médicos. Eles sorriem com grande piedade em seus olhos. Rabiscam qualquer coisa em suas pranchetas, me dizem que eu não posso mais comer batatas fritas e me pedem para eu ter fé. E eu finjo ter, pois não quero decepcioná-los. Mas sei a que eu estou destinado. Sei bem que tenho um compromisso sombrio e sem volta ao anoitecer e, nada vai importar se eu desaparecer segurando a sua mão.

Já não sinto mais o meu sangue correr pelas veias. Só o que sinto é o cheiro das flores de lavanda que você deixou sobre a mesinha ao lado da minha cama. Esta morte lenta está me enlouquecendo. Ou eu já era louco antes disso? Não sei. Só sei que se  tivesse uma arma, acabaria com isso agora mesmo. Iria morrer instantaneamente com um tiro certeiro ou sangrar lentamente até o último suspiro. Mas, infelizmente, não pude e nem posso escolher a forma de morrer e tenho que aceitar este desastre que me consome aos poucos.

Todas as noites, antes de fechar os olhos esperando a morte, desejo que um dia estas paredes sejam pintadas de azul, porque o branco já me cansou os olhos. Malditos e benditos sejam os hospitais antes de nossas mortes. Amém."

domingo, 2 de abril de 2017

Mas pra que serve mesmo o choro?


Chore. Chore incansavelmente se as coisas não estão como você queria. Grite e delire com seu choro. Mesmo por que tudo vai parecer estar desabando a qualquer momento. Quando as nuvens negras e melancólicas tamparem o Sol do seu céu, você sobreviverá se apenas chorar. Angustie - se com seus medos e tristezas e, chore. Os dias passarão mesmo se você não estiver bem.

Se desespere com a solidão e vá dormir no frio do seu quarto, aquele que outrora era aconchegante. E, talvez - talvez eu digo -  amanhã você descobrirá que sua vida vazia e dolorosa ainda vale a pena. Então, ao amanhecer, mesmo sentindo-se tonto por não saber se realmente dormiu ou se apenas delirou em meio aos pesadelos e sensações amedrontaras que a madrugada traz, você se verá acordado e - ainda - vivo. Este é o momento que você tem para continuar tentando. Chore de novo em frente ao espelho - ou rosto - riscado. Ou nem chore, tanto faz agora. 

-"Mas pra que serve o choro mesmo?" Já nem sei mais. Você poderá descobrir que a vida ainda pode valer a pena. E se mesmo assim  você conseguir chorar depois, chore muito. Por que a partir de um certo momento até as lágrimas irão te abandonar. Como diria uma sabia dona Maria, aquela minha mãe: "Chore meu filho! As lágrimas podem ser o único alivio para tua alma!" 

Num final de tarde, quente e alaranjado, se quiser chorar abraçado com sua mãe é uma boa ideia. E se possível ou ainda tiver força e coragem diga a ela que o medo dói. Dói tanto que te impede de desnudar a alma e desabafar sua angústia. Muito mais que isso, ele sufoca e destrói seus sonhos, de um jeito tão cruel e lentamente, e com uma maldade anedônica e nostálgica, que eu já não ouso - e nem quero - mais descrever.