segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

"E você? Tem medo do que?"

Era época de laranja madura, e Mark ouvia de seu quarto, algumas já bem maduras caírem dos pés.  Mark podia imaginar claramente sua casa rodeada de pés de laranjas e um milharal que se estendia até o horizonte. Ele sempre brincava sozinho depois da aula no milharal, mas á noite ele tinha medo. Trancava bem a porta do quarto e a janela, deitava na cama e cobria-se até a cabeça, não se importando com o calor do verão. Mark tinha medo, pois sabia que a noite seus pesadelos viriam e o assustaria. Seus pais já estavam acostumados com seus surtos de sonambulismo, já cansados de tantos médicos e especialistas só o que lhes restavam era trancar e esconder as chaves das portas.  Mas naquela noite foi diferente. Mark acordou com o barulho de várias laranjas caindo no chão. Um frio paralisante tomou conta de sua espinha. Rapidamente cobriu a cabeça. Uma voz lá de fora o chamou, ele trancou a respiração para ter certeza que não estava sonhando. Mais laranjas caíram do pé. Alguma coisa estava lhe chamando para fora e ele sabia que tinha que ir ver o que era. Suspirou, juntou forças e saiu da cama. Foi até a sala e olhou pelo buraco da fechadura. Uma linda lua cheia fazia com que os pés de laranjas fossem iluminados, tornando o milharal numa enorme mancha escura. Ninguém estava lá fora, ninguém estava chamando por ele, mas ele tinha que ter certeza. Seu corpo estremeceu no momento que abriu a porta. Nada. Somente a lua iluminando. Deu uma volta ao redor da casa, observou as laranjas maduras caindo todo o tempo. Nada. Porém, atrás de sua casa, ao lado de uma velha horta uma brecha no milharal lhe chamou atenção. Teve calafrios e ficou paralisado olhando para aquele imenso milharal que brincava durante a luz do dia. Teve medo. Teve muito medo, mas algo o chamava. Fechou os olhos e desejou estar sonhando, mas não estava. O panico tomou conta de seu corpo, já não tinha mais forças para gritar. Queria chamar seu pai e sua mãe mas não conseguia. Olhou novamente para a entrada no milharal e correu o máximo que pode. Sentia as folhas do milharal ferirem o seu rosto. Correu como se estivesse atras de alguém, como se alguém estivesse atrás dele. Quando estava cansado de tanto correr, parou. Sentindo-se perdido no meio do milharal não conseguia se mover, nem gritar. Só sentia o medo que paralisava todo seu corpo. Escutou um grito que o fez chorar de medo. Era sua mãe procurando por ele. Estes acontecimentos se repetiram por toda sua infância e Mark nunca soube explicar o por que. A única coisa curiosa é que ele sempre corria na mesma direção no milharal. O curioso era saber que nesta direção, ao fim da plantação, havia uma casa abandonada que Mark jamais ousava se aventurar nas suas proximidades nem durante o dia. Ele tinha péssimas lembranças daquela casa. Lá dentro, em noites de inverno, já havia amarrado e amordaçado sua mãe - que tentara cometer suicidio - para protege-la de seu pai - alcoólatra - que queria matá-la todas as noites.

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