sábado, 29 de abril de 2017

"Hospitais e despedidas"

Das crônicas "Viagens de Um Menino Voador"
"Quando ele olhou para trás, para seu passado, novamente foi consumido pela dor e desapareceu. Desta vez não deu tempo nem de desabafar. Infelizmente seu amado não pode ver nem pela última vez o brilho dos seus olhos. Desapareceu por completo e com ele, toda e qualquer lembrança de sua vida aqui neste mundo. Ele era tudo e desapareceu."

A despedida

"Eu morri com o seu nome em meus lábios, por que não há mais nada a dizer. Não pude dizer mais nada. Eu dancei com você no corredor do hospital, em pesadelos provocados pela dor e febre. E mesmo com o cheiro do antisséptico hospitalar, pude apreciar os bombons que ganhei de ti no Dia dos Namorados. Em muitas noites de desespero, você me acalmou e me fez mergulhar em seus braços e, eu de bom grado, fechei os olhos e adormeci no seu peito.

Os remédios, as agulhas e os bisturis não me assustam mais. Só enquanto você estiver segurando a minha mão. Seus braços são meu abrigo e, enquanto eu estiver sob ele posso vomitar quantas vezes for necessário estas malditas pílulas paliativas e abstratas. Mesmo com meus pulmões enfraquecidos e com o coração dando suas últimas batidas, ainda assim tenho forças para fazer de ti uma grande e majestosa arvore. E no galho mais seguro construí meu ninho. Um ninho quente, confortável e seguro.

Várias vezes ao dia, entram em meu quarto enfermeiros e médicos. Eles sorriem com grande piedade em seus olhos. Rabiscam qualquer coisa em suas pranchetas, me dizem que eu não posso mais comer batatas fritas e me pedem para eu ter fé. E eu finjo ter, pois não quero decepcioná-los. Mas sei a que eu estou destinado. Sei bem que tenho um compromisso sombrio e sem volta ao anoitecer e, nada vai importar se eu desaparecer segurando a sua mão.

Já não sinto mais o meu sangue correr pelas veias. Só o que sinto é o cheiro das flores de lavanda que você deixou sobre a mesinha ao lado da minha cama. Esta morte lenta está me enlouquecendo. Ou eu já era louco antes disso? Não sei. Só sei que se  tivesse uma arma, acabaria com isso agora mesmo. Iria morrer instantaneamente com um tiro certeiro ou sangrar lentamente até o último suspiro. Mas, infelizmente, não pude e nem posso escolher a forma de morrer e tenho que aceitar este desastre que me consome aos poucos.

Todas as noites, antes de fechar os olhos esperando a morte, desejo que um dia estas paredes sejam pintadas de azul, porque o branco já me cansou os olhos. Malditos e benditos sejam os hospitais antes de nossas mortes. Amém."

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