quinta-feira, 6 de março de 2014

"Writing My Life" (parte 1)

Depois de pensar muito sobre o assunto, hoje (ou ontem, sei lá!), resolvi iniciar a série "Writing My Life" (nem sei porque diabos escolhi escrever o termo em inglês, justo eu que odeio ficar fazendo apologias!), e que provavelmente nunca terá um fim pelo mesmo motivo que ela começou: eu vou morrer jovem! Não sei porque, mas desde minha infância eu sempre tive a sensação de que a morte viria me visitar muito cedo e hoje com 24 anos eu descobri que ela esta mais próxima do que eu imagino. Nunca pensei em como ou do que exatamente irei morrer, mas em certas situações do meu cotidiano sempre me imagino morrendo: ao ligar o chuveiro. Já pensou morrer eletrocutado ou escorregar e bater com a cabeça no piso? Quando saio na rua me imagino sendo atropelado ou alguém caindo de asa-delta em cima de mim. Até dormindo tenho medo de me enforcar com meu fone de ouvido (mas sou corajoso, sempre vou dormir ouvindo música por causa dos barulhos que eu ouço na minha cabeça, mas esta é outra história, clique aqui se quiser saber!). Sei lá onde este medo começou (o tal medo da morte!) mas as primeiras lembranças que tenho é dos entardecer silenciosos lá na casa de meus pais. Nasci e me criei em um sitio, no interior do sudoeste do estado (Chopinzinho, Paraná) e mesmo sendo muito pequeno lembro que a noite me trazia uma sensação de profunda agonia e angústia. Lembro exatamente do Sol se pondo atrás da montanha e levando com ele toda a minha tranquilidade e serenidade de menino. Se eu fechar os olhos ainda consigo imaginar exatamente aquele céu alaranjado, aquelas centenas de cigarras e o cheiro do entardecer me asfixiando a cada minuto que se passava. Não posso afirmar aqui que todos os dias eram horríveis. Claro que não. Eu estou falando das noites. Mas também não todas as noites. Algumas noites. E sei dizer exatamente quais as noites. Meus pais sempre foram muito trabalhadores e honestos e sempre ensinaram eu e meus 7 irmãos a serem também. Sim, tenho 7 irmãos: 1 homem, 6 mulheres e eu! Soou estranho ou até engraçado este eu, mas é assim que sempre me senti. Estranho para os outros, mas para minha própria auto-estima sempre me denominei engraçado. Engraçado e feliz durante o dia e a semana e estranho e triste durante a noite e os finais de semana. As malditas noites dos finais de semana. Eu ainda as odeio. Nos finais de semana meu pai tinha, por costume, que ir num boteco tomar cachaça e jogar baralho. E não sei porque vinha bêbado para casa e as noites eram um inferno. Beber não era o problema, mas ele chegava em casa e começava a brigar com minha mãe acusando-a de um milhão de coisas sem fundamento e os dois começavam a se ofender com palavras até baterem com as mãos ou objetos um na cara do outro. Não sei precisar com que frequência e em que período exatamente isso ocorria. Só sei dizer que quando chegava as noites dos finais de semana eu ia dormir na casa de uma das minhas irmãs, já casada, para evitar de ficar vendo toda aquela bagunça dos bêbados. Sim. Os fatos aconteceram exatamente nesta ordem: meu pai trabalhava de sol-a-sol a semana toda, no final de semana enchia a cara, brigava com minha mãe, esta cansada da situação e sem poder lutar contra uniu-se a ele, tornou-se também compulsiva por álcool; minhas irmãs acabaram se cansando das brigas e se casaram muito cedo e só restou meu irmão e eu. E dois pais bêbados! Porém quero deixar bem claro aqui que não foi toda esta história de alcoolismo, brigas dos pais e tal que me deixava com medo. Eu não acredito em transtornos psicológicos e coisas do gênero causadas por um trauma de infância. Posso afirmar aqui que desde que me senti como ser humano eu já carregava esta sensação dentro de mim. Muito antes de qualquer tragédia que viria a surgir na minha família. Acredito que certas fobias não são adquiridas, mas nascemos com tendências a senti-las e basta um ambiente favorável para que uma cadeia de sensações nos tome e nos obrigue a carrega-las para sempre. Porque durante algumas noites, na época do auge do alcoolismo de meus pais, na verdade fui até bem corajoso. Coisas do tipo, ter que cortar a corda com que minha mãe bêbada tentava se enforcar em um pessegueiro ou ter forças para ajudar meu irmão a imobilizar meu pai para que ele não tomasse veneno com intuito de se matar. Até mesmo enfrentar o milharal, o qual eu morria de medo (clique aqui, e leia a história do milharal), para esconder minha mãe em uma casa velha, na divisa de terras de meu pai. Fui até bem frio na minha infância. Nunca vou esquecer de uma noite de inverno que tive que ajudar a minha irmã, a mais jovem das mulheres, a amarrar e amordaçar minha mãe para que ela ficasse quieta enquanto meu irmão distraía meu pai e tentava tomar o machado de suas mãos para que não assassinasse minha mãe. Meus pais sempre foram  pessoas extremamente queridas (clique aqui para entender que são os melhores pais do mundo!). Mas quando bebiam não tinha quem os segurasse. Meu pai adquiria uma psicose tão grande que achava que todo mundo queria mata-lo e minha mãe uma força descomunal. Mesmo assim, nós todos nos amávamos e lutávamos todos os dias para que nossa família não se desintegrasse por causa do álcool. E deu certo. Alguns anos depois, meus pais pediram ajuda para se livrar do alcoolismo e todos nós, filhos e filhas estávamos de prontidão para ajudá-los. Foi a salvação da vida de meu pai e de minha mãe. Ou o álcool por si só os tinha matado os os dois já tinham se espancado até a morte se eles não tivessem tomado a iniciativa de dar um basta naquilo. Enfim, teve um final feliz e tal. Pena que muitos por aí não tiveram a mesma sorte que eu. Mas voltando ao meu medo da morte, torno a afirmar, mesmo antes de tudo isso acontecer eu já o sentia e sabia, a cada entardecer, que iria morrer jovem. As coisas só pioraram quando entrei na adolescência. Acredito que as descobertas, não só físicas mas também emocionais e espirituais começaram a mudar muito a forma de como eu via e sentia a vida.
Vou deixar para uma próxima postagem. Se der tempo. Se eu não morrer até lá.

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