quinta-feira, 6 de novembro de 2014

" O medo de sofrer me bate a porta do coração."

O visitante

Abro os olhos e te vejo, ali, na minha frente. Sinceramente não sei o que fazer. Minha vontade era levantar rápido, te dar um daqueles abraços e te beijar muito, transmitir a você todo o carinho que tenho acumulado aqui comigo. Mas, levanto, chego até perto de você, estendo a mão, te comprimento, dou um abraço formal e sento novamente.
Você percebe que há algo de errado, mas por me conhecer muito bem não diz nada ainda. Senta-se no sofá e fica me olhando.
Aquele olhar que eu não sei descrever; meigo, carinhoso, forte, suave, sensível, mas que perscruta toda minha alma, todo meu ser.
Você me encara com doçura, típica de seu comportamento, pois sabe que uma hora ou outra eu irei falar alguma coisa.
Seu olhar me incomoda, porque sim, você sabe que há algo errado.
Tento desviar seu olhar, puxo uma conversa nada a ver, só para passar o tempo. Você participa, fala; nós rimos, nos olhamos e o silêncio volta a aparecer e a nos constranger.
Parece que não há nada mais a ser falado, que não há assunto.
Você se ajeita no sofá e fica observando, esperando eu dar o primeiro passo.
O silêncio vai ficando mais constrangedor para nós dois.
De repente uma lágrima surge, mansinha, suave, quase imperceptível, mas ela vai seguindo seu caminho pelo rosto, descendo, trilhando o caminho da dor incontida, da dor não falada, sulcando as marcas da face como um arado que sulca o terreno para o plantio.
Esperamos esta lágrima cair, e vem mais uma, e mais uma. Várias...
Então, nos levantamos e, sem nada dizer, nos abraçamos.
- "Por que você não falou?"
- "Adiantaria?"
-" Claro que sim, eu estaria do teu lado."
-" Sofreria a dor que estou sofrendo?"
- "É... Infelizmente não... Eu iria sofrer sim, mas não a sua dor pois seria a minha dor."
- "Então... Por isso que nada falei antes..."
- "E agora, como vai ser?"
- "Não sei, sinceramente não sei."
- "Posso fazer alguma coisa?"
- "Pode fazer algo muito importante!"
-" E o que é?"
- "Ficar ao meu lado, estar comigo, me dar seu ombro, seu colo, seu carinho..."
- "Isso você sabe que tem quando quiser."
- "Mas agora eu preciso de ti ainda mais."
- "E nossos sentimentos, como ficam nessa história toda?"
Silêncio.
O abraço dura tempo, muitas lágrimas escorrem dos rostos, se confundem na miscelânea dos sentimentos sentido naquele momento único e incomparável. Vagarosamente vamos nos recompondo. Sentamos no sofá. Ele arruma a almofada no seu colo e eu me deito ali, como uma criança no colo da mãe...
- "Lembra daquele sonho?"
- "Qual deles?"
- "Você dormindo e alguém te cuidando?"
- "Lembro como se fosse hoje."
- "Me lembrei dele agora."
- "Por quê?"
- "Me lembrei como se ela estivesse aqui, ao lado da porta da sala, só nos observando e me dizendo com os olhos: “cuida bem dele”..."
- "Acredito que ela estaria sim dizendo isso."
- "Ela aprovaria isso?"
- "Talvez ela não dissesse nada, mas no coração dela aprovaria sim, pois apesar de tudo a mãe quer sempre o bem do filho."
-" Verdade. Minha mãe diz sempre isso..."
Os dedos mexem nos meus cabelos, um cafuné gostoso que vai me serenando. Os dedos seguem o rumo do rosto, tocando a pele, sentindo, como se fosse um cego a reconhecer e querer marcar para sempre o rosto de alguém através do toque.
As bochechas, os olhos, as sobrancelhas, o nariz, e finalmente, chegam nos lábios como a sentir o gosto de um beijo.
Este carinho fraterno segue por minutos e minutos, não percebemos o tempo passar.
De repente me levanto, olho bem nos olhos e fico um longo tempo a encarar olho no olho.
- "Que foi?"
- "O que você tem a me dizer que ainda não disse?"
- "São tantas coisas."
- "Que tal começar pelo início então?"
- "Você sabe a maioria delas."
- "Posso até imaginar quais sejam, mas quero ouvir elas de seus lábios, te olhando cara a cara."
- "Será que preciso falar mesmo?"
- "Você quer falar?"
- "Não sei se consigo."
- "Por que?"
- "Tenho medo de você achar que fui fraco, que desisti de um grande amor, que não tentei mais, enfim, que não era amor de verdade."
-" E o que é o amor?"
- "Amor? O que é o amor, será?"
- "Quer descobrir junto comigo?"
- "Como assim?"
- "Você sabe exatamente qual é minha proposta. Quer? Aceita?"
- "Eu..."
Acordei num sobressalto, quase caio da poltrona. Minha camiseta está molhada, meu rosto também. Chorei muito pelo visto. Respirei profundamente, como a querer trazer de volta aquilo tudo e a única coisa que consegui foi encher de ar meus pulmões e sentir o leve odor da lavanda.
Mas, novamente, estou sozinho no meu canto. Não há ninguém aqui comigo, mais uma vez foi um sonho.
Por Celso Marczal

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