terça-feira, 19 de março de 2013

"Não é nada mãe! Vai passar..."

Como disse no post anterior ("Desde a concepção, fui*...): "-Estou colecionando finais de semana em casa. Eu? Achando ruim é? Estou nada. Curtindo a casinha e a mãezinha!!!" Bem, o aconchego acabou.

                                                               Parte I
Hoje levantei bem cedinho sentindo o cheiro do café preto que só minha mãe sabe fazer. Acordei já arrumando o kit de sobrevivência que levo na mochila toda vez que vou passar uma temporada na casa de meus pais. Minha mãe já foi logo preparando a mesa."-Não vai filho, fica mais um pouco com a mãe e o pai!" Bem que eu queria ficar, mas eu tinha que voltar pra minha casa. Tinha que ver como estava aquele lugar abandonado há alguns dias por mim. Por mais que eu tentasse esconder minha mãe percebia a tristeza sendo refletida em meus olhos. "-Mark, filho você sabe que não pode esconder nada da mãe... Que foi filho? Fala! Estou aflita sem saber o que se passa e angustiada por não poder te ajudar. Sei que é um momento crítico e..." "-Não é nada que você precisa se preocupar mãe, já esta passando" foi o que consegui dizer já com lágrimas nos olhos e um nó na garganta. É muito frustrante o fato de que minha mãe sempre me ensinou a ser forte em qualquer situação, mas aquilo havia me enfraquecido e eu não tinha coragem nem de dividir minha dor com ela. Covarde! Não. Tinha medo de deixa-la doente com meus problemas. Peguei um pedaço de broa de fubá* e passei um doce de pêssego, ambos feito por ela, comecei a comer. Minha mãe continuava a me olhar e eu sabia que ela queria saber mais."-Filho, alguma coisa esta errada... Você não sorri mais, não canta, não dança e nem tem mais disposição para conversar com ninguém. Eu quero o meu Mark de volta! A única coisa que você fez foi ficar o dia todo em silêncio, fechado no quarto deitado naquela cama." Minha mãe sabia que algo estava errado, afinal ela que me criou. Desde criança fui super ativo e minha mãe sempre disse que me tornei um adulto 'elétrico'! Mas agora tudo estava diferente. Eu realmente estava passando por uma fase difícil.

                                                              Parte II
"-Oh meu filhinho, não esconda nada da mãezinha!"(?) Sim. Mesmo eu já sendo um homem barbado, minha mãe ás vezes me trata como se fosse o seu menino que nunca cresceu! Comecei a chorar. "-Olha filho, você disse que perdeu alguns de seus amigos, seus melhores sonhos foram destruídos e as pessoas começaram a te apontar e te julgar ser uma pessoa de má índole... Já sentiu muitas dores físicas e psicológicas... Vive dizendo que esta destruído, mas que tudo vai passar... Filho a mãe precisa saber o que esta acontecendo!" Acabei de tomar meu café num gole só. Chamei minha mãe para conversarmos na varanda. O Sol apontava timidamente seus primeiros raios sobre as montanhas que cobriam todo o horizonte. "Estou com medo mãe! Estou tentando encarar tudo isso de cabeça erguida... E assim vivo tentando. Tentando reconstruir todos meus melhores momentos. E o tempo vai passando e eu nem dou conta do quanto estou infeliz na tentativa de voltar no tempo". Minha mãe me olhou com um olhar firme. "-Filho, não podemos viver do passado. Temos que amadurecer e seguir em frente!" Eu engoli o choro mais uma vez, mesmo sabendo que minha mãe não se importaria se eu chorasse na sua frente. "-O fato é que o 'seguir em frente' pode ser mais difícil do que pensamos, mãe..." Meu pai entrou na varanda tateando uma cadeira para sentar. Ficou olhando para o nada, tentando imaginar o que se passava entre minha mãe e eu. Desde que meu pai perdera a visão se tornou uma pessoa extremamente sensível e auditiva. Consegue ficar horas ouvindo uma conversa antes de dizer uma palavra sequer." -Mark, você esta deixando sua mãe e eu muito preocupados. Fala filho... Quem sabe o paizinho aqui, que não sabe de nada destas 'cabeças de jovens', pode ajudar." Eu abracei meu pai. "-Sabe o que é pai? Estou com muito medo! Estou passando por um momento em que as coisas ao meu redor parecem ter perdido o sentido e entrei num profundo processo de auto-questionamento. Aqueles valores, sabe pai? Crenças e condutas que até então eram válidos já não são mais e, ao mesmo tempo, não consigo reformulá-los. Tudo isso é sentido por mim como um ‘vazio dolorido’ ou um ‘caos interior’." Meu pai começou a chorar. Há muito tempo ele vinha acompanhando minha tristeza sem falar nada. Sofrendo comigo em silêncio. "-Filho, não precisa falar nada para o pai se não quiser, eu entendo pelo seu silêncio que você esta sofrendo... Mas, embora sinta muito sofrimento,eu sei que este é um momento precioso da sua vida por ser uma época de virada e superação..." Minha mãe se aproximou.


                                                  


                                                  Parte III (final)
Choramos os três abraçados na varanda. Peguei minha mochila, coloquei meus óculos e o fone de ouvido. Já estava atrasado para o ônibus. 
"-Filho quando você vai melhorar?"
"-Não sei mãe, não sei."

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