segunda-feira, 8 de setembro de 2014

“Ele era tudo, mas o vazio o consumiu e ele desapareceu.”

Das crônicas “Viagens de um Menino Voador”

Parte I - O Vazio
Depois de alguns eternos meses estou aqui novamente na frente do computador querendo voltar a escrever alguma coisa. Mas queria escrever algo que realmente valesse a pena você ler, e sinceramente tenho a impressão de que já falei tudo que tinha que falar. Aconteceram tantas reviravoltas na minha vida que literalmente abandonei muitas outras (coisas) que gostava de fazer. Pelo simples fato de todas terem se tornado desinteressantes para mim. Começo a acreditar de que nada mais me satisfaz. É uma busca incansável pelo novo. E este novo se torna velho e inanimado em questão de dias ou até mesmo horas quando o encontro. Realmente nada me deixa feliz, e isso esta me deixando exaustivamente preocupado e insatisfeito. Isso é nítido em minha vida. Os reflexos deste vazio interior já começou a afetar minha vida profissional, minha vida afetiva e estou começando ficar extremamente preocupado com minha sanidade mental.

Então lembrei de meu anjo. Aquele meu velho anjo, o Gabriel. Depois de tê-lo abandonado por tanto tempo, como fiz com tantas outras coisas e pessoas, resolvi chama-lo para conversar e talvez tomar uma xicara de café. Pensei que ele jamais iria me aceitar de volta. E como um bom anjo, um anjo amigo diria, aceitou meu convite sem êxitar. Fomos tomar um café na praça, mesmo sabendo que o café me causa extrema dor no estomago. Não. Realmente não é o café que faz doer, mas sim este vazio monstruoso que sinto.
 “ Como vai velho amigo?” . Indagou-me com um belo sorriso mostrando suas covinhas adoráveis na bochecha.
“Maravilhosamente bem!” Foi a atuação cinematográfica mais maravilhosa que fiz para alguém. Na verdade não estava querendo ser falso, só não queria demonstrar minha tristeza.
“Certeza menino?” Abaixou a cabeça, fez uma cara de mal e me olhou por cima de seus óculos, deixando a vista seus lindos olhos azuis.
“Sabe Gabriel aquela dor? Ela voltou.” Gabriel sempre soube de minha dor. E como todo bom anjo amigo acalentou meu coração com suas palavras de motivação e otimismo.
“Sim Gabriel, meu coração parece de elástico...” Eu sabia o que isso queria dizer e percebi que rapidamente Gabriel também tinha entendido, ou talvez até sentido.
“Coração de elástico? Gostei dessa definição.” Gabriel ficou olhando para o nada. Era como se estivesse encontrado a resposta para uma pergunta que o havia atormentado a vida toda.
“Verdade. Coração elástico... As vezes dói mais, as vezes dói menos... Não é?” Fitou-me. E eu estremeci.
“Bem assim, parece que estou doente do coração”. Poderia ser doente da mente ou da alma também.
Mudamos de assunto rapidamente. Acredito que nenhum de nós dois estávamos preparados para falar sobre tal assunto.
“Mark, seu menino levado, porque parou de escrever suas estórias e historias? Hein menino? Fique sabendo que comecei a reler muitos de seus textos?” Fui tomado por um misto de sensações.
“Nem me fale Gabriel. Acredite em mim amigo, eu sei que preciso voltar a escrever. Porem não sei sobre o que. A escrita parece que se tornou invalida, inútil e inanimada.” Fechei os olhos e suspirei fundo. Estava preparado para receber um chá de realidade na cara.
“Mas você tem muita coisa para escrever... Você tem que falar e mostrar muita coisa para tanta gente...” Gabriel me olhava tão entusiasmado que chegava a me impressionar.
“Perdi tanta coisa, abandonei tantas outras por ai, e acabei me sentindo meio solitário. Na verdade acho que só estou precisando de um motivo para escrever.” Realmente, eu estava precisando de motivos ate para respirar naquele momento.
“Então menino, vou te dar um motivo. Posso?” Tomou um gole do café, quase frio, colocou os cotovelos sobre a mesa e esperou a minha resposta.
“Pode.” Foi uma resposta sem nenhum entusiasmo.
“Eu.” Me olhou novamente por cima de seus óculos. Tive a ligeira impressão que ele sabia qual arma usar contra minha pessoa.
“Então, posso te confessar um segredo? Mas você tem que fingir ser outra pessoa...” Tinha certeza que Gabriel iria concordar com minha condição para ouvir o que eu queria falar.
“Claro que pode...” Sorriu e fechou os olhos apertando-os bem forte. Este era o nosso código para dizer que estava tudo bem.
“É sobre um menino, uma vida, um vazio e um monstro...” Tomei o último gole de meu café já frio.
 “Continue...” Gabriel fez um gesto para a garçonete pedindo-lhe que trouxesse mais dois cafés quentes.
“Então... Este menino viveu toda sua infância achando que haviam monstros assustadores embaixo de sua cama. Ate, um dia descobrir que, monstros mais malvados e obscuros viviam sobre elas...”
Continua... Ou o vazio tomara conta e nada mais vai existir.