domingo, 25 de outubro de 2015

"O amor tem cheiro de quê?"

(Esta não é uma história de amor.  Esta é uma história sobre amor.)

"Atualmente todas as manhãs de domingo são iguais para mim. Mas, naquela manhã do dia vinte e seis de outubro foi diferente, e isso marcou a minha vida para sempre. Mark era seu nome. Ele sim soube fazer a diferença nos meus domingos. Eu o amava. 
Aquele era um domingo de primavera. Acordei bem cedo aquele dia, abri a janela e deixei que a brisa fresquinha trouxesse  com ela o cheiro das flores do nosso jardim. Me encostei na janela, fechei os olhos e tentei adivinhar de quais flores eram todos aqueles cheiros e qual era a fragrância mais suave. Foi em vão. Era uma mistura muito suave de rosas, manacás, jasmins e gardênias. Desisti. Somente a minha mente era mais confusa que todos aqueles cheiros naquele momento. Era tudo tão agradável e mesmo assim olhando para as minhas mãos eu percebi que - ainda - estavam tremendo. 
Olhei para trás e pude observar como ele estava aconchegado em minha cama. A luz do amanhecer o acordou quando terminei de abrir a janela. Mark percebera minha expressão:
 -"Que foi meu bem?"
 -Você Mark. apertei minhas mãos para que ele não percebesse nada. Sentei na beira da cama de frente para a brisa da janela, uma lágrima insistiu em cair de meus olhos. Sentia que aquela manhã era a última vez que ia vê-lo acordar.
 -"Mas, meu bem" - fez uma pausa, ele precisou pensar o que ia falar - "estou plenamente feliz por estar ao seu lado. E espero que  eu, também esteja te fazendo feliz."
Sempre soube que Mark estava falando a verdade. Ele era muito feliz ao meu lado e fazia questão de demonstrar isso o tempo todo. Mas eu insisti:
 -"Mark, até quando você vai me amar?"
 -"Para sempre!" esta era sua resposta. Mark era do tipo sonhador-apaixonado. Ele vivia dizendo que o nosso amor era tão forte e tão especial que ia durar para todo o sempre. 
-"Não se ama ninguém para sempre. O amor um dia acaba Mark." 
-"Mas nosso amor é diferente meu bem." - Com um movimento rápido me puxou pra cima dele e me deu um abraço bem apertado. Realmente com ele tudo era diferente, eu tinha que admitir isso. Ele era um bobão apaixonado pelas coisas e que sentia a vida de uma outra forma. Ele delirava e acreditava num mundo lirico e inocente, qual sabia eu  que não existia fora da sua cabeça. E mesmo com pouca idade - tinhas lá seus vinte e três - e sem saber muita coisa sobre o mundo cruel e insensível que vivemos, ele tinha uma visão maravilhosa sobre o mesmo. Isso me fez apaixonar-se por ele.
 -"Meu bem, mesmo que um dia um dia nossos destinos nos separe, eu sempre guardarei você em um cantinho muito especial do meu coração. Mas saiba que eu nunca deixarei isso acontecer."
Abracei-o em forma de conchinha.
 -"Mark, se não percebeu ainda, eu estou falando de mim. Você sabe que eu vou envelhecer muitos anos antes de você. E quando você tiver a minha idade, eu já estarei bem velho." 
Naquele momento, Mark ficou alguns segundos em silêncio, tirou meus braços que estavam em volta de seu corpo e sentou-se na cama encostando-se na cabeceira. Tive muito medo do que poderia ouvir. Me calei. Mark então virou-se para mim com os olhos cheios de lágrimas, passou a mão sobre meu rosto e tentou dizer algumas palavras, mas o choro não as deixou bem claro:
-"Meu bem" - ele sempre me chamava assim, de meu bem - "sei que somos de estilos de vidas e épocas diferentes, mas nossos ideais são parecidos. O amor é igual para todos e em todas idades. Meu amor por você é completo. É amor limpo. Ele não distingue nossas idades, quem esta fazendo esta distinção é você mesmo. Para de sofrer por uma bobeira dessas. Você será meu para sempre".
Abracei-o mais forte que todos os outros abraços de toda a nossa vida. Ficamos algum tempo daquele jeito, sentindo o cheiro inebriante das  flores que invadiam o quarto. As minhas mãos ainda estavam tremendo. Aquele foi a última manhã de domingo juntos. Queria ter vivido muitos outros anos a seu lado e aprender a amar a vida da forma que ele amava. Mas o destino quis que eu fosse embora antes da hora. E tive que o deixar - dois dias depois - sem poder me despedir.
Ainda o vejo todos os dias sem ele notar minha presença. E sinto em seu coração que ele ainda pensa em nós.

sábado, 24 de outubro de 2015

"Amarei em silêncio e você amará em silêncio"

"Ás vezes quero apenas ficar deitado ao seu lado - com a mão aconchegada em seu peito - olhando você sem dizer nada, só
para não esquecer do seu rosto quando eu estiver dormindo."
Imagem: Foxx

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

"senta aqui"

vem cá. isso. senta. não, não vou falar de novo que tô com saudade e que gostava tanto de conversar contigo. você sabe dessas coisas. já te falei. já te escrevi. só senta, vai. quer beber algo? vou tomar café e já vou pedir uma cerveja pra você. tudo bem, volta de táxi pra casa. a cerveja tá boa, não é? agora olha pra mim. não, não fala nada. olha. sabe que eu gostei de você, né? do teu papo. do teu jeito.  tá desviando o olhar por que? não consegue me olhar? te fiz algo? shh… não, não fala. tá querendo ir pra rua acender um cigarro, não é? termina a cerveja. tá me olhando ainda? a mesa ao lado te parece mais interessante? olha pra mim. continua olhando. vou pedir outra cerveja. shh… tudo bem! não. senta de novo. eu me levanto primeiro. você termina esse ultimo gole do copo. vou entrar em outro bar qualquer. você sai, fuma seu cigarro e entra em outro bar qualquer. se for o mesmo que o meu, ou foge, ou fica. se for outro, a nossa noite segue no quarto de outra pessoa. não, ainda não. não vou levantar agora. deixa eu te olhar mais um pouco. chega mais perto. deixa eu tentar te enxergar por dentro e te entender. deixa eu ver o que talvez não veja mais. tá. vou levantar. será que agora? não precisamos seguir o roteiro que eu falei. quando eu levantar pode segurar meu braço, se quiser. shhh… não faz essa cara de deboche. tá. agora eu vou. mas se quiser pode ir primeiro. não, vamos os dois juntos. ainda não. só vou no banheiro e já volto. se quiser, fica.
Karen Becker, readaptação.