sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

"O amor é uma imaturidade emocional?" (Conto, parte I)

"Quando se perde o medo de perder é que se está livre."

Meus últimos dias foram uma tempestade de emoções. E, no meio de tantas pancadas, a mais doída delas foi saber que sofro por que eu - em grande parte - escolhi isso consciente ou inconscientemente. Confesso que desejei e queria muito uma única coisa. Alimentei em meu coração aquele sentimento. Sim, repetidas vezes já havia sido informado que havia outra pessoa no seu coração. Mas, como diz uma velha e experiente senhora, diga-se minha mãe: "a esperança é a última que morre meu filho!" E claro, as vezes gostamos de nos enganar. Sem dúvida, é muito prazeroso fantasiar a felicidade.

Naqueles dias, ao ler um texto postado por ele, meu coração e meu cérebro experimentaram sentimentos antagônicos: ora uma dor dilacerante no coração, ora uma alegria fraternal n'alma. "O que os olhos não vêem, o coração não sente, meu filho!" Outra vez, as sábias palavras de minha velha mãe tomou conta de meus caóticos pensamentos. E, acho foi mais ou menos assim que se resumiu o inicio dela. Da minha dor.

 Sim, eu sabia que ele tinha encontrado uma pessoa que o fazia extremamente feliz. Mas, lá no fundo - do meu peito, não sei - ainda restava uma esperança de que aquilo não fosse verdade. Não entendo porque gostamos de nos iludir com coisas que sabemos que não podem ser como queremos. Mesmo assim,eu o queria. Seu corpo em um dia cansado, seu cheiro em um fim de tarde alaranjada, seus pensamentos confusos ou não, e principalmente, sua linda e angelical alma.

"Sentimento de posse? Ou seria vontade de pertencer? Seja lá qual fosse o sentimento, eu o queria.  Meu, pra mim, comigo. Só pra mim. "Egoísmo?  Ou será que seria só imaturidade emocional da minha parte?" Não sei. Estava confuso. Confuso, com medo e, só.

Na minha obsessão - isso, eu estava louco.  Louco e obcecado - fui sincero e, de certo modo falei que tinha confundido as coisas e deixado a paixão invadir meu coração. Ele falou que - realmente - tudo aquilo era uma ilusão. E quanto mais eu o observava ás escondidas, mais podia constatar que ele estava realmente feliz com o alguém, com o homem legal. Não pude aguentar. Não sou lidar na verdade. Quebrou-se algo dentro do meu coração. Aquelas lágrimas doces de desejo e felicidade, rolaram amargas pela minha face, descontroladamente. Não podia fazer nada, a não ser chorar mesmo. Chorar lágrimas frias, amargas e dolorosas.

"Culpar alguém? Quem?" Se não a mim mesmo por “ ter confundido as coisas”. Por ser tão apressado, imaturo, incoerente e desnecessário, talvez. Em meio a choros, noites mal dormidas e dias cinzentos com olheiras dolorosas, eu me perguntei inúmeras vezes o por quê "esses enganos sentimentais " sempre aconteciam comigo. E mesmo se passado tanto tempo - muito mesmo - eu ainda não encontrei respostas aceitáveis pra estas perguntas e, sinceramente, não sei se hoje eu quero saber.

Confesso que são bem difíceis - lentos e dolorosos - a superação destes meus enganos. No entanto, este caso era diferente, parece que eu sofria muito mais do que costume. Chorei bastante, assumo. Me senti um nada, um zero a esquerda, um problemático, sei lá. Inferior, isso, talvez esta palavra defina melhor como me senti naquele momento. Nem meus compromissos, nem a música boa, nem ninguém conseguia acalmar a minha dor n'alma.

Tentei de tudo. Tudo mesmo. Um certo dia, pelo messenger conversei com um amigo. Levei um tapa virtual dolorido, mas foi necessário. Conversei bastante com ele. Trocamos alguns conselhos. Interessante: ele é mais novo que eu, no entanto é bem mais experiente sobre os assuntos amorosos e sentimentais que envolvem o coração e etc. Também, recebi a visita do meu irmão, que me fez sentir pertencente a um grupo que me amava, como eu era, como eu sou, e que me amavam deste jeito mesmo. Assim confuso, verdadeiro e humano. Comecei a ler coisas compulsivamente na internet pra passar o tempo, pra ocupar a cabeça, pra não pensar. Escrevi e postei alguns textos  sobre amor e tardes chuvosas no Facebook.  Mas, eu sabia que lá no fundo, era pra me enganar, pois aquilo não saía da cabeça e nem do coração. Foi um tempo difícil. Difícil e necessário.

 Até que um dia, em uma manhã  melancólica e nostálgica, encontrei em meio a tantos dos textos, um que me chamou a atenção. Era um que falava do amor, ”a estranha forma de amar”, acho que era isso, e bem no final do texto dizia que "o amor tudo supera". Naquele momento, muitas  lágrimas invadiram meus olhos e desceram queimando sobre meu rosto. Minha vontade era sumir deste mundo e nunca mais ver ninguém. Mas, como sempre, a magia celestial agia em minha vida, eu não podia sumir pois tinha que ir para um baile de formatura em que eu era da equipe organizadora. Enquanto eu me arrumava pensava em como tinha acontecido.  Pensei nos detalhes, nas grandes descobertas, nos sentimentos,  e em tantas  conversas que tivemos, virtuais ou presenciais. Nem vi o tempo passar. Ainda me perdia nos pensamentos quando lembrava de nós.

Já pronto para o baile.  Arrumado em meu traje social, iniciei uma longa caminhada até o local, sempre pensando em desistir, em voltar e ficar chorando minhas amargas mágoas. Porém, algo lá dentro me dizia pra ir, que aquilo poderia ser bom.

Continua [...]

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Será insônia ou saudade?

“La tristesse durera toujours” [Vincent Van Gogh]

"As vezes, só as vezes mesmo, fico mentalmente me perguntando: 
"quantas pessoas tem este ódio especial pela noite?" 
Ódio. Sim meus senhores, ódio pela noite. Não é medo do escuro não, é apenas pelo simples fato de não conseguir dormir em paz.  
Irremediavelmente, vão surgindo mais e mais perguntas: 
"será que o tal barulho na cabeça tem o mesmo som, mesma frequência ou motivo? Ou será que esta dor mental varia de pessoa pra pessoa?" 
Penso. Penso alto. Tento imaginar alguma coisa triste para chorar e aliviar a dor na alma. Fracasso novamente. Entro em síncrese total com os pensamentos. Depois de horas - ou minutos, não sei - canso de pensar. Mas não de ouvir e sentir o barulho. Exaurido, minha dor meço e, às vezes, adormeço. Afinal, amanhã é outro dia, mesmo que com as mesmas dores de ontem. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Será que isso só acontece comigo?

Sabe aquelas conversas que você tem com seus amigos em algum momento de bobeira que depois você fica pensando: "Será que isso só acontece comigo?"

Conversa nível 1
"Papo profundamente filosófico com um amigo hétero extremamente inteligente"

Mark: "Charlie, hoje estive pensando e cheguei numa conclusão..."
Charlie-Amigo-Hétero-Inteligente: "Que conclusão? Sobre o que?"
Mark: "Ah, sobre as pessoas. Quero dizer, como elas pensam e como elas vêem a nossa imagem."
Charlie-Amigo-Hétero-Inteligente: "Eu já pensei sobre isso também."
Mark-Empolgado: "É mesmo? E que conclusão chegou?"
Charlie-Amigo-Hétero-Inteligente: "Com o cérebro elas pensam e com os olhos elas nos vêem. Simples assim, cara!"
Mark-Decepcionado: "Quê!?!"

Conversa nível 2
"Jogando conversa fora com uma amiga hétero no sofá da sala"

Amiga-Hétero: "Mark, tem certeza que você é gay?"
Mark: "Sim, claro que tenho certeza gata. Mas porque a pergunta?"
Amiga-Hétero: "Se você é gay mesmo, então porque a gente transou quando nos conhecemos?"
Mark: "Não entendi gata. O que isso tem haver?"
Amiga-Hétero: "Nada, eu acho. É que você fez o "negócio" direitinho. Me deu até um sufoco."
Mark: "Desculpe por aquela noite gata. Eu estava bêbado e você disse que estava carente e precisava de um homem, e, eu sei bem o que é isso!"
Amiga-Hétero: "Quê!?!''

sábado, 1 de outubro de 2016

“Como você quer que eu te apresente?"

-"Como devo te apresentar?" - treinei mentalmente repetidas vezes o que devia falar. Respirei fundo.

Vi ele descendo do ônibus. O seu mesmo jeitinho, como da primeira vez. Desceu os degraus, virou, me olhou e abriu aquele sorriso maravilhosamente encantador. Os passos são unicamente dele. Se aproximou. Eu parado, chegou até mim. Um frio na barriga, como se fosse sempre a primeira vez.

Sem dizer uma única palavra, ele quebrou o gelo com aquele grande e gostoso abraço (nossa marca registrada). Aquele abraço que me faz esquecer tudo, que faz o coração bater mais forte e mais feliz. Aquele que faz as dores ficarem pra depois. Um caloroso abraço. Um abraço de amigo, de irmão, de anjos, de amantes, de pai e filho. Mas  é nossa marca, que nos fez nos despertou o desejo de querer encontrar-se  pela primeira vez. Ainda lembro como se fosse ontem o primeiro encontro que confirmou nossas existências: 

-“Você existe!”- existimos sim. Fomos um para o outro, e vivemos momentos maravilhosos, eu sei.

Um abraço que pareceu durar uma eternidade. Aconchego, carinho, tesão, amor, sossego e paz. Instantes maravilhosos. Fomos nos soltando aos poucos, abrindo nossos sorrisos. Ele me olhou com aquele olhar, chegou mais perto, se colocou na ponta dos pés - sou consideravelmente mais alto - tocou meu rosto com suas mãos, abaixou minha cabeça e me deu um caloroso beijo na testa. Aquele beijo de um pai em seu filho, o beijo da benção, do afago e do respeito. Olhei nos olhos dele de maneira profunda:

-“Eu quero mais."

Seguiu-se um beijo ardente. Daqueles iguais das novelas quando o casal se reencontra depois de muito tempo sem se ver. Um beijo tão profundo , carinhoso e delicioso. Os olhares ao redor viraram-se para nós. Afinal de contas um beijo entre dois homens não é coisa que se vê por aí, por mais normal que deveria ser. Nos desgrudamos, nos olhamos e rimos.

- "Não deveríamos ter feito  isso." - disse-me baixinho.
- "Por que não? Vem, vamos lá fora." 

Pegamos nossas malas e mochilas e, de mãos dadas, nos encaminhamos para a parte externa da rodoviária. Chegando lá fora, escolhemos um banco que nos ofereceu um pouco mais de privacidade e intimidade. Arrumamos as malas, nos sentamos olhando um para o outro. Ao nosso redor a paisagem exuberante da capital paranaense: Curitiba. Com suas árvores, flores e pássaros e o clima agradável com o sol do final do mês de janeiro.

- “Se o perto não fosse tão longe, o que é invisível seria visível”. - disse isso com um olhar intelectual somente para começar a conversar e quebrar o gelo.  Ainda bem que decidi tornar o invisível visível e o longe perto.


- "Fiquei tão feliz que você aceitou viajar comigo e visitar minha amiga em Paranaguá."
- "Não sei se foi uma decisão sensata" - disse Mark.
- "Fique sabendo que, independente de tudo, meu coração bateu bem mais feliz quando você disse: ‘sim, eu viajo com você Gabriel'!".
- "Eu sei, senti a sua emoção pelo celular" - disse Mark sorrindo.
- "Agora, temos que resolver um problema..."
- "Mais um?" - Mark ficou com uma expressão preocupada.
- "E esse será resolvido exclusivamente por você."
- "Como assim?"
- "Pense bem. Pense muito bem na resposta que você vai me dar."
- "Diga logo homem, não faça rodeios".
Percebi que Mark estava ansiosamente desconfortável.
- "Minha amiga e seus familiares vão querer que eu  apresente você a eles, e isso é óbvio. A questão é: como você quer que eu te apresente? Como meu amigo, meu amigo colorido, meu anjo, meu companheiro, meu namorado?  Repito e peço que pense bem: como você quer que eu te apresente?"

Mark me olhou nos olhos, esfregando as mãos compulsivamente uma na outra, demonstrando sinal de que sua ansiedade havia aumentado repentinamente.

- "Gabriel, meu bom anjo" - era assim, de meu anjo, que Mark carinhosamente me chamava - "Eu pensei muito nestas tantas horas de viagem até aqui, e, agora tenho certeza do que responder."
- "E?" - o seu desespero agora era meu.
- "Eu quero que você me apresente como seu..."

[..]


Ouvi um barulho bem ao longe que se aproximou rapidamente e fez com que eu não conseguisse ouvir a resposta de Mark.
- "Ei, acorda meu irmão, está na hora do café da tarde. Chega de dormir." - acordei num susto com a minha irmã gritando. Um sensação de não saber onde estava e uma leve dor não sei onde.

- "Ah, não! Poxa mana, justo agora?" - pensei alto demais, eu acho.
- "Hã?"
- "Nada não minha irmã."
- "Sei. Pelo sorriso que esta estampado no seu rosto imagino o motivo da sua felicidade. No minimo o senhor sonhou novamente com seu anjo. Acertei?"
- "Está tão nítido assim?"
- "Tem de responder essa maninho?"

Levantei, tomei um banho e fui pra varanda tomar café da tarde com minha irmã. Minha irmã foi primeira e eterna confidente. Sem dúvida aquela seria, mais uma tarde que tirei pra pensar em meu anjo. Até hoje ainda não descobri se ele é o motivo da minha felicidade ou da minha desgraça.

sábado, 11 de junho de 2016

"Menino, você tem medo de quê?"

A pergunta pairou no ar deixando-me fora do corpo. Era como se a espada do meu inimigo me acertasse em cheio. Eu olhei para as minhas mãos ensanguentadas e, em seguida, apenas disse:

-"Alguma vez você já sentiu uma dor aqui? Sabe, um vazio no estomago que não é fome?  Uma dor na alma, talvez?"

Eu fui feliz. Mas um dia meu coração doeu tanto que todos meus orgãos pararam de funcionar gradativamente. Porque? Não sei. Simplesmente perdi as forças de continuar vivendo.

-"Mas, como assim menino? Você vivia dizendo que tinha medo da morte! O que aconteceu para mudar assim, tão repentinamente?"

Pergunta repetida merece uma resposta. Mas em vez disso, caí no chão e quis desaparecer.  Minhas mãos trêmulas foram sumindo junto com a tinta vermelha-azul do meu sangue. Minha pele parecia  que ia rasgar a qualquer momento.

-" Não faça escândalo, olhe-se no espelho. Você já não é mais menino. Este não é seu fim. Você vai ficar bem!"

Estou cansado deste mundo cinzento e melancólico. Exaurido pela dor física e mental que me consome todos os dias. Estou exausto de ouvir a maldita voz que ecoa em meus ouvidos me condenando a morte solitária sem dó nem piedade. Eu já não posso mais esconder meus segredos debaixo do meu travesseiro. A única coisa que ainda escondo no meu travesseiro são as manchas das lágrimas e as noites assombradas e mal dormidas. Segredos muito bem guardados, para que ninguém possa ver que eu estou com dor e choro as vezes.

-"Mas menino, mesmo depois de se tornar este homem barbado, eu custo acreditar que, ainda, você tem medo da morte. É isso mesmo? Você tem medo de morrer?"

Claro que eu tenho. Sempre tive e sempre terei. Mas, no meu caminho acabei descobrindo que existem dois tipos de pessoas que não temem a morte. Elas não sorriem, não choram, não fazem a menor sugestão de emitir algum tipo som e não demonstram nenhum sentimento. Elas não se movem e nem tentam se proteger. Elas praticamente nem existem e mesmo assim a morte sempre ronda as suas cabeças.

-"E quem são essas pessoas?"

Os corajosos, que temem tanto - mas tanto - a morte a ponto de enfrentá-la; e os doentes, que suplicam por ela, mas ela não os agracia com sua presença.

-"E você, tem medo de quê?"