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sábado, 22 de junho de 2019

Insônia: doença ou maldição?

Das crônicas: "estórias do mundo"

"Por que eu não consigo dormir á noite?" - pensava  desesperado ao saber que já estava amanhecendo outra vez e ainda não tinha conseguido dormir. Boca seca, garganta amarga, mãos trêmulas, dor no peito e um barulho ensurdecedor no vazio da sua cabeça que  o enlouqueciam todas as noites.

Já  tinha tentado quase tudo - da medicação à meditação, da acupuntura ao suicídio - e nada.  Já faziam mais de três anos que não conseguia dormir direito. Sintia-se fraco. Mas não tanto a ponto de sentir sono. Tinha alucinações vívidas, pesadelos de olhos abertos e exaustão  física e psicológica. Não obstante, ainda estava acordado - e supostamente, vivo.

-"Será doença ou maldição?" - perguntava-se para tentar entender toda aquela situação.

E mesmo não aceitando, virou rotina ir dormir com aqueles malditos acufenos a lhe enlouquecer. Era difícil acostumar-se com a dor, mesmo já tendo passado tanto tempo. Na verdade não sabia o que doía mais: se era aquele barulho na cabeça ou as dores  psicossomáticas no corpo - que analgésico nenhum curava - ou se era o seu coração recusando-se a  aceitar a verdade. Verdade? Que verdade? A realidade já não lhe era familiar.

Não lhe restando mais nada a fazer começou chorar todas as noites  na esperança de que aquilo fosse um dia passar. Chorou muito, afogou-se várias vezes nas águas profundas da sua própria dor. Só ele, o escuro amedrontador e o seu travesseiro. Não passou, nada passou.

Com o andar dos meses, exaurido, começou a perceber que chorar não curava e nem aliviava a sua maldita alma. O que cura? Não sabia. Cientista nenhum - ainda não - sabe."

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

O sonho do anjo

Ele chegou de mansinho, sentou-se na beirada da cama e, inicialmente, só observou.  Estou ali deitado, dormindo. Depois de um dia nada fácil as dores foram tamanhas que o corpo e a mente não aguentaram. Geralmente não gosto de tomar remédios por conta própria, mas desta vez não teve jeito. A dor era tão aguda e intensa que eu não conseguia, ou não queria, ficar consciente. 

Tomei alguns comprimidos para as dores, me dirigi ao quarto, acendi uma vela e orei. Com os olhos quase fechados, repeti novamente a invocação ao Anjo da Guarda e me deitei. Dormi. 

Inicialmente me debati muito, mas aos poucos fui serenando. Logo estava dormindo tranquilamente, apesar da febre ainda rondar meu corpo. E ele estava ali. 

Olhou-me por alguns minutos e, então, chegou mais perto da cabeceira e começou a tocar minha fronte, mexendo em meus cabelos. Uma força emanava dele. Uma energia tranquilizadora e benfazeja emanava das suas mãos. Ali, de olhos fechados, e sua mão percorria vagarosa e carinhosamente os cabelos, o pescoço, o rosto e a fronte. Ficou nesse carinho por um bom tempo, o necessário. Até que ele ouviu um ruído, abriu os olhos e olhou para a direção do ruído: era a porta de entrada do quarto. 

Ela estava ali também, em pé com o ombro encostado no batente da porta e a cabeça levemente inclinada, observando. Ele não a conheceu pessoalmente, mas sabe muito bem quem era ela. Fez menção de se levantar, mas ela indicou com um gesto de não, que continue sentado.

- "Eu fiz a minha parte quando estive aí, e daqui faço o que posso. Agora é a sua vez de cuidar dele, de o ajudar, mesmo de longe."
- "Mas..." -  ia falar porém o nó na garganta não deixou.
- "Ele confia em você e sabe que você pode e vai ajudá-lo. E eu também confio. E sei que..."
- "Como?" - outra vez sem fala. Agora as lágrimas também embaçaram seu olhar. Sentiu o toque suave das mãos, uma em seu ombro e outra na cabeça.
- "Confie em você, confie nele. Eu confio e ajudo os dois, eu te peço."

Acordei. A sensação foi de paz e benção. Tranquilidade serena. Abri os olhos assustado. Tentei me localizar. O coração batendo acelerado, o corpo trêmulo e o suor sem febre. Tentei me acalmar. Foi só um sonho. Novamente aquele sonho.
Por Celso Marczal, o anjo Gabriel.