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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

"Sempre fico por perto"

Sempre foi difícil falar de sentimentos cara-a-cara. Uma verdade é que sempre me faltaram aquelas palavras, as bonitas. Sinto-me constrangido, pequenino, insignificante diante de tal silêncio. 

Sinto com mais intensidade, quando a vida me exige boas palavras para consolar alguém. As palavras vão timidamente surgindo pelos cantos da boca, no entanto todas parecem-me sempre triviais, e tenho a sensação de que não representam o que realmente sinto. Claro que admiro puramente aquelas pessoas que, ao consolar alguém que perdeu um ente querido - ou um amor ou o seu cãozinho - conseguem encontrar as palavras certas para transmitir conforto, palavras doces que não aquelas que apenas parecem alarvidades. Eu nunca  consegui. 

Me sobra somente um nó na garganta, que não deixa sair nada. Um sufoco angustiante, daqueles de doer a alma. E por ali fico. Minúsculo, envergonhado, acabrunhado e com vontade de fugir e de me esconder bem longe. Mas não fujo. Meu corpo desobedece a minha mente confusa, e eu abraço. O abraço é algo que não posso conter. Me abstenho das palavras e aperto o outro com desejo de tomar a sua dor pra mim. Em silêncio eu chego, em silêncio eu fico, e apesar de não falar nada, a única coisa positiva que consigo fazer é ficar por perto. 

E tenha certeza, eu sempre ficarei por perto. Sempre."

sábado, 23 de junho de 2018

"O silêncio"

"O silêncio pode dizer tanta coisa para quem realmente quer ouvir."

Da mesma forma que Marcos entrara na vida de Dam, em silêncio, assim também o deixou. Em silêncio ele se foi para sempre. 

O silêncio havia-o consumido por muito e  muito tempo. De tanto sofrer por falar e principalmente ouvir palavras bonitas e posteriormente ser machucado pelas mesmas palavras, Marcos prometera a si mesmo que o silêncio seria suas únicas palavras a serem ditas a quem quer que fosse. Essa era sua sina: um viver eternamente sozinho com seu silêncio.

"Pessoas silenciosas tem muito barulho em suas cabeças", já dizia aquela frase clichê.  O silêncio é a forma mais lenta e barulhenta de suicídio. É o que nos separa do sofrer e ser feliz. É o grito que todo desesperado grita para o mundo e ninguém ouve. É um sonho bonito que perdeu-se em nossas mentes barulhentas. É o sangue doado sem nunca mais poder ser reposto pelo corpo um dia. É o que nos mantém vivos de corpo, ou mortos de almas.  O silêncio pode ser o deus no ar ou a morte  em vida que, talvez, possa ser suportada. O silêncio é o que consome durante o dia, ou a noite, lhe causando calafrios e dor na espinha. O silêncio é a razão. E a única razão, talvez, por não se querer dizer uma palavra sequer que possa vir a machucar alguém ou magoar a si mesmo. É o medo de ser feliz dizendo palavras bonitas - o que as pessoas querem ouvir - ou viver eternamente triste por nada dizer - e só falar quando realmente necessário e verdadeiro.

O silêncio talvez foi a  resposta da sua alma na tentativa de superar sua dor. Nada mais a dizer. Lentamente o silêncio instaurou o caos em sua mente. Mesmo diante das palavras mais belas e surpreendentes de Dam, Marcos preferiu o silêncio e o suicídio mental que o consumiram até o outro amanhecer.

Silêncio.