sexta-feira, 21 de julho de 2017

"Pai também chora"

"Dedico a meu pai, um homem bom. Que me mostrou seu verdadeiro eu, e chorou a sua dor confortando-se em meus braços."

Embora eu não seja um exemplo de bom homem, eu sou filho de um grande  homem. Sim, meu pai me ensinou tantas coisas boas. Coisas que de fato eu aprendi e tenho praticado o tempo todo em minha vida.

Um dia, quando tinha cinco anos, caí de bicicleta. Comecei a chorar e nem  sabia direito o por quê, pois nem estava sentindo tanta dor assim. Sabia que gritar naquele momento não ia me ajudar em nada. Mesmo assim continuei gritando muito até meu pai  aparecer e me pegar em seus braços:

-"Calma, não foi nada filho, é normal a gente cair quando esta aprendendo a andar de bicicleta. Não precisa chorar assim. Escuta, se chorar toda vez que cair, que tipo de homem você será? Você quer ser um homem forte como o papai? Então filho, acalme-se... "

Minha cabeça de criança não entendia muito bem o que ele queria dizer com aquelas palavras, mas sabia o que tinha que fazer a partir daquele momento. Aprendi minha primeira lição em se tornar um homem: "homens não devem chorar. Nunca". E tentei não chorar desde então. Nem quando eu caí novamente da bicicleta aos sete anos. Nem quando meus amigos estavam com raiva de mim e me chutaram no joelho, muito menos quando eu tinha onze anos e me senti mal por  meus pais não conseguirem me compreender. Quem dera quando os valentões da escola me bateram e me humilharam por eu não me encaixar em um padrão de comportamento. Nem naqueles momentos em que me senti sozinho no meio de tanta gente.

-"Pra quê chorar? Isso não adianta em nada!" pensava eu quando me sentia triste.

Mas a vida nos prepara surpresas - algumas boas, outras nem tanto - que quebram nossas máscaras e  partem nossos egos em mil pedaços. Devido a uma doença grave nos olhos, meu pai perdeu a visão de uma noite para o dia. E isso trouxe uma realidade desesperadora para sua vida. Meu pai que sempre foi um homem forte, fechado, nada sensível, mudou. Tornou-se um homem quieto, triste e angustiado. A escuridão não havia roubado apenas a luz de seus olhos, acho que ela também levou o brilho da sua alma.

Um dia desses - era outono, acho - meu pai disse que queria falar comigo. Sem hesitar, peguei minha mochila e embarquei num ônibus, a seu encontro. Algo estava estranho naquela tarde. Não sabia o que era, apenas uma sensação angustiante havia tomado o meu corpo. Ao chegar em casa - ao gritos, como de costume - meu pai veio ao meu encontro, tropeçando no tapete e me oferecendo os braços para um abraço. Costumeiramente me deu um beijo na testa e começou a tatear o meu rosto.

-"Já é um homem feito o meu filho! Olha só o tamanho do seu bigode." 

Eu sorri, passei a mão nos seus cabelos grisalhos, fixei meus olhos nos seus olhos esbranquiçados. Meu pai me olhava passeando com as mãos levemente no meu rosto na tentativa de imaginar em que tipo de homem eu  havia me transformado. Repentinamente ele me abraçou forte e começou a chorar em meus ombros. Não sei o que aconteceu comigo naquele momento, só sei que automaticamente eu chorei também. Foi tão difícil. Era primeira vez em muitos anos. Apertei os lábios,  cerrei os dentes com mais força. Com toda a sensibilidade de minha alma  eu vivi e dividi aquele sentimento  abraçado com  meu pai. Ele não disse uma palavra sequer, apenas me apertou mais forte. E o sentimento aumentou, não só isso, meu pai começou a soluçar e gritar. Eu não sabia o que fazer. Eu vi o homem, aquele que me ensinou a não chorar, chorando comigo. E ele me viu - chorando - depois de tantos anos.

Na tentativa de entender tudo aquilo perguntei o que estava acontecendo. Ele - aos soluços - apenas me disse:

-"Nada meu filho, nada. O pai apenas quer aliviar a alma."

Naquele momento pude constatar apenas uma coisa: a dor nos faz chorar sim, mas só os homens mais fortes a admitem

Fim, ou começo de uma nova amizade entre eu e meu velho e amado pai.

"O amor tem cheiro de quê?"

Esta não é uma história de amor.  Esta é uma história sobre o amor.

"Todas as manhãs de domingo são iguais para mim. Mas, naquela manhã do dia vinte e seis de outubro foi diferente, e isso marcou a minha vida para sempre. Mark era seu nome. Ele sim soube fazer a diferença nos meus domingos. Eu o amava.

Aquele era um domingo de primavera. Acordei bem cedo aquele dia, abri a janela e deixei que a brisa fresquinha trouxesse  com ela o cheiro das flores do nosso jardim. Me encostei na janela, fechei os olhos e tentei adivinhar de quais flores eram todos aqueles cheiros e qual era a fragrância mais suave. Foi em vão. Era uma mistura muito suave de rosas, manacás, jasmins e gardênias. Desisti. Somente a minha mente era mais confusa que todos aqueles cheiros naquele momento. Era tudo tão agradável e mesmo assim olhando para as minhas mãos eu percebi que - ainda - estavam tremendo.

Olhei para trás e pude observar como ele estava aconchegado em minha cama. A luz do amanhecer o acordou quando terminei de abrir a janela. Mark percebera minha expressão:

 -"Que foi meu bem?"
 -Você Mark.

apertei minhas mãos para que ele não percebesse nada. Sentei na beira da cama de frente para a brisa da janela, uma lágrima insistiu em cair de meus olhos. Sentia que aquela manhã era a última vez que ia vê-lo acordar.

 -"Mas, meu bem" - fez uma pausa, ele precisou pensar o que ia falar - "estou plenamente feliz por estar ao seu lado. E espero que  eu, também esteja te fazendo feliz."

Sempre soube que Mark estava falando a verdade. Ele era muito feliz ao meu lado e fazia questão de demonstrar isso o tempo todo. Mas eu insisti:

 -"Mark, até quando você vai me amar?"
 -"Para sempre!" 

Esta era sua resposta. Mark era do tipo sonhador-apaixonado. Ele vivia dizendo que o nosso amor era tão forte e tão especial que ia durar para todo o sempre.

-"Não se ama ninguém para sempre. O amor um dia acaba Mark." 
-"Mas nosso amor é diferente meu bem."

Com um movimento rápido me puxou pra cima dele e me deu um abraço bem apertado. Realmente com ele tudo era diferente, eu tinha que admitir isso. Ele era um bobão apaixonado pelas coisas e que sentia a vida de uma outra forma. Ele delirava e acreditava num mundo lirico e inocente, qual sabia eu  que não existia fora da sua cabeça. E mesmo com pouca idade - tinhas lá seus vinte e três - e sem saber muita coisa sobre o mundo cruel e insensível que vivemos, ele tinha uma visão maravilhosa sobre o mesmo. Isso me fez apaixonar-se por ele.

 -"Meu bem, mesmo que um dia um dia nossos destinos nos separe, eu sempre guardarei você em um cantinho muito especial do meu coração. Mas saiba que eu nunca deixarei isso acontecer."

Abracei-o em forma de conchinha.

 -"Mark, se não percebeu ainda, eu estou falando de mim. Você sabe que eu vou envelhecer muitos anos antes de você. E quando você tiver a minha idade, eu já estarei bem velho." 

Naquele momento, Mark ficou alguns segundos em silêncio, tirou meus braços que estavam em volta de seu corpo e sentou-se na cama encostando-se na cabeceira. Tive muito medo do que poderia ouvir. Me calei. Mark então virou-se para mim com os olhos cheios de lágrimas, passou a mão sobre meu rosto e tentou dizer algumas palavras, mas o choro não as deixou bem claro:

-"Meu bem" - ele sempre me chamava assim, de meu bem - "sei que somos de estilos de vidas e épocas diferentes, mas nossos ideais são parecidos. O amor é igual para todos e em todas idades. Meu amor por você é completo. É amor limpo. Ele não distingue nossas idades, quem esta fazendo esta distinção é você mesmo. Para de sofrer por uma bobeira dessas. Você será meu para sempre".

Abracei-o mais forte que todos os outros abraços de toda a nossa vida. Ficamos algum tempo daquele jeito, sentindo o cheiro inebriante das  flores que invadiam o quarto. As minhas mãos ainda estavam tremendo. Aquele foi a última manhã de domingo juntos. Queria ter vivido muitos outros anos a seu lado e aprender a amar a vida da forma que ele amava. Mas o destino quis que eu fosse embora antes da hora. E tive que o deixar - dois dias depois - sem poder me despedir.

Ainda o vejo todos os dias sem ele notar minha presença. E sinto em seu coração que ele ainda pensa em nós.

"A morte do último dragão"

"Era uma vez, num reino muito, muito distante, fadas, dragões, elfos e demais criaturas misticas viviam harmoniosamente entre si.

Mas, não era em todo mundo que a paz reinava. No reino de Paetêpurpurinawisky, vivia o mais perverso dragão. Este dragão era mal, muito mal. E odiava os seres que não se vestiam bem, que não curtiam pop, que não liam bons livros. Ele odiava a mesmice das fadas, os elfos mesquinhos, os orcs que não estavam na moda. Ele era muito sexy e malvado, seu corpo de dragão era coberto por escamas de diamantes e quando sobrava alguns xens (dinheiro dragonês) ia assistir aos shows das divas drogôwnicas nos reinos vizinhos. E assim a maldade reinava naquele mundo brilhante, colorido e fashion.

Um dia, um ser desconhecido  invadiu o seu reino, e estava armado até os dentes, suas línguas eram assustadoras. Dragões, fadas, elfos e todas as criaturas de todos os continentes uniram-se para tentar livrar-se da criatura estranha e apavorante a qual foi nomeada de humanosapiens pelos dragônianos.

A guerra durou muitos anos. Todos os dragões, elfos e fadas foram dizimados. Já não restava mais ninguém e o brilho das purpurinas nas montanhas haviam desaparecido das terras dragonianas. Na batalha final entre o último e mais perverso dragão, o ser terrível gritando em nome de seu Deus, usou sua arma mais poderosa, o intolerencespreconceitus e matou o dragão. 

Fim."

Já estou morto

As dores psicológicas e espirituais já estão sendo somatizadas em meu corpo físico. Não aguento mais. Os meus dias são infindáveis e cada segundo é uma angústia amedrontadora que jamais senti antes. É doloroso viver. Não obstante, as noites são as piores. Não tenho dúvida alguma de que minha alma escurece junto com o findar da tarde e, isso torna a noite o meu pior momento. Rolo na cama tentando dormir. Não obtenho êxito neste desejo. Desejo talvez um pouco simples para as outras pessoas. Este processo vira um círculo vicioso, sendo repetido inúmeras vezes até eu me sentir exausto de tanto tentar dormir.

Sons captados durante o dia tornam-se reais em minha cabeça. Ouço-os nitidamente com uma perfeição incrível. Imagens e luzes confundem-se e cegam meus olhos. Olhos perdidos na escuridão da noite em meu quarto. A ansiedade é exaustiva, não posso mais aguentar. Senti o ar entrando com dificuldade nos meus pulmões. Comecei a suar frio. Uma tremedeira invadiu o meu corpo e alma sem me pedir licença. O nó na garganta dói, não consigo mais engolir. Uma lagrima quente lentamente molha a minha face na escuridão.

"Homem não chora meu filho" dizia a minha velha mãe.

Sendo eu apenas uma criança, minha mãe nunca me explicou que aquele vazio - e medo - dói, que nos destrói lentamente e nos asfixia na escuridão. Minha cama, outrora quentinha e aconchegante, tornou - se meu caixão. Ninguém me vê. Ninguém está chorando pela minha morte, apenas eu mesmo.

Mesmo estando em soluços e em pedaços a dor não me abandona nunca, ela insiste em me jogar num abismo sem fim. Juntei forças e me levantei, atordoado, em direção ao banheiro. Olhei no espelho. Não me vi. Meu coração já não suporta mais. Encostei-me na parede, fui escorregando aos poucos até o chão. Sentei no piso frio do banheiro. Apoiei a cabeça nos joelhos junto ao peito. Gritei de dor. Eu estou desaparecendo.

Descobri que já estou morto. Um morto que só quer voltar a viver. E o assassino? Este continua por aí, disfarçou-se com o nome de violência, ignorância, preconceito, corrupção, machismo, guerra, intolerância religiosa e, muitas vezes,  até da falta de amor próprio.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Faça o que precisa ser feito

"É claro que as pessoas precisam de uma outra que as completem. O vento que sopra em uma delas também vem soprar na outra"

Na sacada da casa de Gabriel - o anjo em minha vida - tínhamos uma vista maravilhosa. Um entardecer com um Sol nostálgico pondo-se no horizonte, escondendo-se atrás de todas as montanhas ao longe - a cidade que Gabriel morava era rodeada de morros e montanhas criando um visual lindo e peculiar. Gabriel tinha um olhar angelical atrás de seus óculos.

-"Meu amigo Gabriel que bom te ver assim tão feliz!"
-"Feliz Mark? Estou plenamente, magicamente feliz por você vir me visitar numa data tão especial assim. Mark seu maluco - insistem em me chamar de maluco ou doido - você entrou no meu círculo de amizade e de certa forma, não sei bem certo a qual, me fez aceitar que mesmo não sendo perfeito eu sou feliz e posso fazer as pessoas felizes. Obrigado!"

Olhando um para o rosto do outro, apoiamos nossos braços sob a beira da sacada e continuamos a ver o Sol sumir devagarinho na linha do horizonte. Desviei o olhar, ele riu e eu também. Fui surpreendido repentinamente com uma lágrima silenciosa sobre a face de Gabriel. Agora com uma aparência não tão feliz assim.

-"Mark, me abraça meu amigo."
-"Não seu maluco! Alguém pode nos ver aqui na sacada."
-"E daí? Eu sou gay assumido e você nem é daqui desta cidade. Meu amigo preciso somente de um abraço confortável que me traga segurança. Por favor?"

O rosto de Gabriel já estava todo molhado de lágrimas. Abracei-o. Ele suspirou. Tentou pronunciar algumas palavras, mas era quase impossivel entendê-las.

-"Mark, eu fiz tanta coisa em minha vida. Não me arrependo de nada. Errei e aprendi, caí e levantei. Posso me considerar um cara feliz. Porém existe uma coisa que me persegue, que não me deixa eu ser plenamente feliz."
-"Gabriel, se quiser compartilhar comigo eu estou para ouvi-lo. Amigos são principalmente para estes momentos!"
-"Nunca falei sobre minha orientação sexual com minha mãe e," - Gabriel tirou os óculos e tentava enxugar as lágrimas do rosto - "eu sei que ela sabia sobre mim, sempre fui covarde e nunca falei abertamente sobre isso, mesmo eu sabendo que ela me amava e me aceitaria como eu sou realmente. Minha mãe era a única pessoa que fazia me sentir seguro e confortável no mundo."

Gabriel baixou a cabeça, colocou a mão sobre o rosto e continuou:

-"Ela fazia um cafuné em minha cabeça e eu me sentia preparado para todas as decisões que eu precisava tomar. Minha mãe era a melhor do mundo, eu deitava na cama dela e achava a cama mais cheirosa do mundo."

Gabriel levantou a cabeça, enxugou os óculos - agora também molhados - olhou pra mim colocou a mão sobre meu rosto acariciando-o:

-"Rapaz, meu rapaz... Não  sei porque mas você se parece muito com ela!"

Não queria quebrar aquele momento, então coloquei a minha mão sobre a dele:

-"Mas Gabriel, o que está esperando homem? Esta é sua chance, este é seu momento. Liga pra ela e diz o que você quer dizer de verdade."
 -"Não dá Mark!"

Gabriel fechou os olhos, as lágrimas cairam novamente.

-"Por quê?"
-'Ela já morreu!"

Ele chorou alto, me abraçou e apertou.

-"Meu amigo, ela morreu e, eu sinto tanta falta dela!"

Ficamos os dois abraçados, e em soluços, naquela varanda. O silêncio de um anoitecer anedônico calou a voz de minha alma. O destino me afastou do meu grande amigo Gabriel. Espero que ele tenha superado a sua perda e a sua dor. 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Crises d'alma

Pensando na crise do Brasil, percebi que eu também estou em crise. 

Crise sobre a felicidade e/ou a ausência dela. Crise sobre as expectativas, sobre "o que virá quando acabar o vazio e começar a vir coisas demais?" Crise sobre o equilíbrio ou sobre a falta dele. Crise sem razão de ter/ser. 

Percebo que não me resta mais nada a fazer, a não ser ter crises. A não ser pensar. Pensar. Pensar, sentir os pensamentos. Pensar e chorar. Chorar, se for o caso. Chorar, sentir as lágrimas e pensar os sentimentos. Ser frio, se for o caso. Não é o caso. Não era pra ser o caso. Foi o caso.

domingo, 9 de julho de 2017

"Pai, o herói que não usa capa"

"Dedicado ao seu Juquinha, que não é nenhum herói, é meu pai."

O Sol apontava timidamente seus primeiros raios sobre as montanhas que cobriam todo o horizonte. 

"Estou com medo mãe. Estou tentando encarar tudo isso de cabeça erguida. E assim vivo tentando. Tentando reconstruir todos meus melhores momentos. E o tempo vai passando e eu nem dou conta do quanto estou infeliz na tentativa de voltar no tempo"

Minha mãe me olhou com um olhar firme. 

"Filho, não podemos viver do passado. Temos que amadurecer e seguir em frente!" 

Eu engoli o choro mais uma vez, mesmo sabendo que minha mãe não se importaria se eu chorasse na sua frente. 

"O fato é que o 'seguir em frente' pode ser mais difícil do que pensamos, mãe..." 

Meu pai entrou na varanda tateando uma cadeira para sentar. Ficou olhando para o nada, tentando imaginar o que se passava entre minha mãe e eu. Desde que meu pai perdera a visão se tornou uma pessoa extremamente sensível e auditiva. Consegue ficar horas ouvindo uma conversa antes de dizer uma palavra sequer.

"Mark, você esta deixando sua mãe e eu muito preocupados. Fala filho. Quem sabe o paizinho aqui, que não sabe de nada destas 'cabeças de jovens', pode ajudar." 

Eu abracei meu pai. 

"Sabe o que é pai? Estou com muito medo! Estou passando por um momento em que as coisas ao meu redor parecem ter perdido o sentido e entrei num profundo processo de auto-questionamento. Aqueles valores, sabe pai? Crenças e condutas que até então eram válidos já não são mais e, ao mesmo tempo, não consigo reformulá-los. Tudo isso é sentido por mim como um ‘vazio dolorido’ ou um ‘caos interior’." 

Meu pai começou a chorar. Há muito tempo ele vinha acompanhando minha tristeza sem falar nada. Ele estava sofrendo comigo em silêncio. 

"Filho, não precisa falar nada para o pai se não quiser, eu entendo pelo seu silêncio que você esta sofrendo... Mas, embora sinta muito sofrimento,eu sei que este é um momento precioso da sua vida por ser uma época de virada e superação." 

Minha mãe se aproximou. Choramos os três abraçados na varanda. Peguei minha mochila, coloquei meus óculos e o fone de ouvido. Já estava atrasado para o ônibus.

"-Filho quando você vai melhorar?"
"-Não sei pai, não sei."

Hoje, me sinto abençoado por ter o pai mais compreensível do mundo. Ele é um herói que não usa capa. É meu herói. É meu herói. 

sábado, 1 de julho de 2017

"Preciso de um herói pra me salvar agora"

"Depois de um tempo, você começa a perceber que as coisas não vão sempre na direção certa. 

Ao desenhar um rosto no vidro da janela de um carro em movimento, com certeza o desenho saíra torto. E, acelerar o mesmo carro para tentar evitar uma nuvem de mau presságio no céu, será inválido. Você não será rápido o suficiente. Não mesmo. Os tentáculos - desenhados no céu - de tudo que você tenta fugir agarrará seus tornozelos, pulsos e pescoço até você ser sufocado e quebrado ao meio. Aquilo que você deixou para trás quando tentou fazer tudo melhor, já eras, não volta mais. 

Claro, você poderia não ter feito tudo o que disse que nunca faria: chorar, agir, desejar, criar, destruir, pensar, amar, sentir, sentir os pensamentos. E com maior ou menor grau fez. e, hoje chora e se pergunta: "Por quê isso?" E com certeza  você não sabe, talvez nunca saberá. Não, você não sabe por que fez todas estas coisas. Sempre pareceu a coisa certa a fazer. No entanto, depois de um tempo, você começa a perceber que: "as coisas nem sempre são/valem o que parecem ser/valer."

Agora - durante este terrível desespero - há apenas dois lugares para correr: Aqui sozinho ou nos seus braços, se eles ainda conseguirem me confortar."