quinta-feira, 23 de agosto de 2018

"9 razões para você ser contra a homoafetividade"

- "nossa, nunca houve tanto mimimi quanto se ouve desta geração atual", disse o moço agressor com seu pseudo-conhecimento inflado.

- "seu moço, o bullying, o preconceito e as demais agressões contra os mais fracos sempre existiram. A diferença é que hoje as vítimas estão emponderadas e revidando, com força total diga-se de passagem, contra seus agressores", disse o outro moço que um dia também foi vítima.

Após esta problematização com meu mais novo amigo (ou inimigo) resolvi enumerar as "9 razões para você ser contra a homoafetividade":

Argumentos:
1. A diversidade não é natural. Muito parecido com os óculos, a cesárea, controle de natalidade e os analgésicos. Não são naturais!


2. O propósito do casamento é para procriar. Portanto, os homens estéreis, as mulheres que não podem ter filhos, os enfermos, idosos e inférteis não podem se casar!

3. Viver com pais gays vai afetar negativamente a vida das crianças. Viver com pais agressivos, alcoólatras, toxico-dependentes ou pais que nunca estão em casa, é melhor do que viver em um lar com duas pessoas gays!

4. Pais gays criam/geram filhos gays. Pais heterossexuais só criam filhos heterossexuais. (Eu particularmente estou curioso pra saber se meu pai era gay e se minha mãe era lésbica, pra eu ter nascido assim)!

5. O casamento gay vai incentivar as pessoas a "virarem gays". Se você ficar em volta de pessoas ruivas, vai começar a crescer cabelos vermelhos em sua cabeça!

6. O casamento gay é contra a religião. O mesmo que de todos os ateus e satanistas. É a religião que é contra. Isto é especialmente verdade sobre aqueles que não têm religião!

7. As crianças precisam de ambas as influências masculinas e femininas em suas vidas. Solteiros (as), divorciados (as), viúvos (as), estão proibidos de criar os filhos!

8. Casamentos homossexuais são sem amor, e irá resultar em divórcio. Porque o divórcio é exclusividade gay, nunca os casais heterossexuais se divorciaram!

9. Nossa sociedade não está preparada para esta magnitude da mudança e da diversidade. Eles serão rejeitados. Como era a liberdade dos escravos, o direito de voto para as mulheres, e a aceitação de negros como iguais aos brancos!

10. Argumento extra: "homossexuais já nascem pecadores", assim como todas as pessoas que não seguem  princípios embasados em alguma religião ou doutrina.

Agradeço a todos por ler a minha pequena contribuição sobre este assunto que vem sendo debatido em todos os lugares nos últimos dias. Obrigado, e até logo.

sábado, 23 de junho de 2018

"O silêncio"

"O silêncio pode dizer tanta coisa para quem realmente quer ouvir."

Da mesma forma que Marcos entrara na vida de Dam, em silêncio, assim também o deixou. Em silêncio ele se foi para sempre. 

O silêncio havia-o consumido por muito e  muito tempo. De tanto sofrer por falar e principalmente ouvir palavras bonitas e posteriormente ser machucado pelas mesmas palavras, Marcos prometera a si mesmo que o silêncio seria suas únicas palavras a serem ditas a quem quer que fosse. Essa era sua sina: um viver eternamente sozinho com seu silêncio.

"Pessoas silenciosas tem muito barulho em suas cabeças", já dizia aquela frase clichê.  O silêncio é a forma mais lenta e barulhenta de suicídio. É o que nos separa do sofrer e ser feliz. É o grito que todo desesperado grita para o mundo e ninguém ouve. É um sonho bonito que perdeu-se em nossas mentes barulhentas. É o sangue doado sem nunca mais poder ser reposto pelo corpo um dia. É o que nos mantém vivos de corpo, ou mortos de almas.  O silêncio pode ser o deus no ar ou a morte  em vida que, talvez, possa ser suportada. O silêncio é o que consome durante o dia, ou a noite, lhe causando calafrios e dor na espinha. O silêncio é a razão. E a única razão, talvez, por não se querer dizer uma palavra sequer que possa vir a machucar alguém ou magoar a si mesmo. É o medo de ser feliz dizendo palavras bonitas - o que as pessoas querem ouvir - ou viver eternamente triste por nada dizer - e só falar quando realmente necessário e verdadeiro.

O silêncio talvez foi a  resposta da sua alma na tentativa de superar sua dor. Nada mais a dizer. Lentamente o silêncio instaurou o caos em sua mente. Mesmo diante das palavras mais belas e surpreendentes de Dam, Marcos preferiu o silêncio e o suicídio mental que o consumiram até o outro amanhecer.

Silêncio.

"A carta de um anjo"

Faz dias que eu não converso com Gabriel, o meu anjo protetor, no entanto hoje ele entrou em contato comigo e para minha surpresa chorei muito ao ler a sua carta. Foi uma mistura de tudo que eu estava sentindo naquele momento que me fez cair em prantos. Repentinamente senti uma dor terrível na alma, e a cada linha que eu lia da carta descobria que meu anjo era tão frágil quanto eu e que precisava de cuidados urgentemente.

De: um Anjo Gabriel
Para: amigo Mark, o gato preto

"Porque sorrir dói tanto? Quem diria que um sorriso iria doer tanto assim. Dói, e muito. E dói mais ainda por saber que a maior parte da culpa é minha. Eu estou causando minha própria dor. E por quê isso? Porque sou fraco demais. Porque eu não consigo quebrar os grilhões que eu mesmo me impus. 

Eu criei este papel, este personagem infame. O alegre, o extrovertido, o brincalhão, o que faz isso e aquilo, o que pode tudo, que tudo consegue, o feliz. Mentira. Eu preciso de ajuda. Não sei bem porque, mas eu travei minhas próprias emoções, já não me permito sentir. E isso está me matando por dentro. Sinto que a represa está prestes a romper, e a barreira vai estourar e eu não vou aguentar. Eu prendo, eu reprimo minhas emoções. Eu sinto mas não externalizo, não demonstro e sei que uma hora ocorrerá a explosão. Sei que esta hora se aproxima e eu não consigo mudar isso. 

Sinto inveja de quem vive livre. Livre de dores e tristezas. Invejo sim, mas por que eu não consigo ser. E me pergunto porque não consigo ser assim. Como eu me prendi de tal maneira que nem eu mesmo sei como cheguei a esse ponto? Até penso em desabafar, contar, falar. Mas aí virão as perguntas que eu não tenho estrutura para responder ou para aceitar as respostas. Meu coração grita, o corpo treme e a boca amarga e eu sorrio. 

Meu anjo menino, desculpe por desabafar palavras tão desesperadas assim. Realmente não sei o que fazer. Deus meu, o que eu fiz comigo mesmo?"
 Fica bem e até logo.

Ao acabar de ler as palavras do meu anjo eu já me encontrava em prantos. Sentia uma dor devastadora invadindo-me o peito amargamente. Não, ainda não sei como ajudar meu anjo protetor. Estou desesperado. Estou fraco. Estou só.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

"Hospitais e despedidas"

Das crônicas Viagens de Um Menino Voador: "Quando ele olhou para trás, para seu passado, novamente foi consumido pela dor e desapareceu. Desta vez não deu tempo nem de desabafar. Infelizmente seu amado não pode ver nem pela última vez o brilho dos seus olhos. Desapareceu por completo e com ele, toda e qualquer lembrança de sua vida aqui neste mundo. Ele era tudo e desapareceu um dia."

Hospitais e despedidas
"Eu morri com o seu nome em meus lábios, por que não há mais nada a dizer. Não pude dizer mais nada. Eu dancei com você no corredor do hospital, em pesadelos provocados pela dor e febre. E mesmo com o cheiro do antisséptico hospitalar, pude apreciar os bombons que ganhei de ti no Dia dos Namorados. Em muitas noites de desespero, você me acalmou e me fez mergulhar em seus braços e, eu de bom grado, fechei os olhos e adormeci no seu peito.

Os remédios, as agulhas e os bisturis não me assustam mais. Só enquanto você estiver segurando a minha mão. Seus braços são meu abrigo e, enquanto eu estiver sob ele posso vomitar quantas vezes for necessário estas malditas pílulas paliativas e abstratas. Mesmo com meus pulmões enfraquecidos e com o coração dando suas últimas batidas, ainda assim tenho forças para fazer de ti uma grande e majestosa arvore. E no galho mais seguro construí meu ninho. Um ninho quente, confortável e seguro.

Várias vezes ao dia, entram em meu quarto enfermeiros e médicos. Eles sorriem com grande piedade em seus olhos. Rabiscam qualquer coisa em suas pranchetas, me dizem que eu não posso mais comer batatas fritas e me pedem para eu ter fé. E eu finjo ter, pois não quero decepcioná-los. Mas sei a que eu estou destinado. Sei bem que tenho um compromisso sombrio e sem volta ao anoitecer e, nada vai importar se eu desaparecer segurando a sua mão.

Já não sinto mais o meu sangue correr pelas veias. Só o que sinto é o cheiro das flores de lavanda que você deixou sobre a mesinha ao lado da minha cama. Esta morte lenta está me enlouquecendo. Ou eu já era louco antes disso? Não sei. Só sei que se  tivesse uma arma, acabaria com isso agora mesmo. Iria morrer instantaneamente com um tiro certeiro ou sangrar lentamente até o último suspiro. Não obstante, infelizmente, não pude e nem posso escolher a forma de morrer e tenho que aceitar este desastre que me consome aos poucos.

Todas as noites, antes de fechar os olhos esperando a morte, desejo que um dia estas paredes sejam pintadas de azul, porque o branco já me cansou os olhos. Malditos e benditos sejam os hospitais antes de nossas mortes. Amém."

sábado, 16 de junho de 2018

"Um gato preto, falante"

"Mark, o gato preto contador de estórias"

Marcos Eduardo - Mark para os conhecidos - estava prestes a completar dezenove anos. Era um moço daqueles que nunca chegava na hora. Não tinha pressa mas tinha muito apreço, pois nunca esquecia um amigo e nem o seu violão. Meio lobo solitário na sua maneira de ver a vida, e mesmo assim tinha muitos amigos que sabiam esperar a sua hora e acolher o seu eterno "isto não está certo" ou o seu "amanhã, amanhã eu vou". Quem o queria tinha que ir buscar e dar carona de volta, pois ele não gostava de dirigir e tão pouco de ser dirigido. O tempo para ele não tinha conta, era para festejar com canto, viola e amigos ou para viajar para um mato e ficar ouvindo o som dos pássaros, em silêncio. Encontrava-se no auge da sua juventude e com uma vontade de viver que transcendia a explicação racional humana para aquele momento.  Idos tempos, saudades. 

Pensei que, como o Marcos, a vida não tinha pressa para acabar. Ledo engano, mal sabia ele que tudo aquilo estava prestes a mudar drasticamente e para sempre. E eu teria que conviver com a dor da perda  do nosso prometido - nunca acontecido - reencontro. E desde então, deste o seu desaparecimento, carrego aquele vazio no estômago que não é fome e aquela dor no peito que não são borboletas.

Capítulo I
Numa noite chuvosa - destas bem frias e melancólicas, que só o meio urbano tem - alguma coisa bem desagradável estava pra acontecer. Sozinho em seu quarto, temores jamais sentidos antes, tomaram conta do seu corpo e da sua alma. Um suor frio lhe invadiu a espinha, suas mãos e pernas - agora trêmulas - mal conseguiam leva-lo até o banheiro para tentar vomitar aquela dor que o consumia. Sons e luzes - captados normalmente durante o dia - agora distorcidos, reinaram em suas entranhas e o mantiveram acordado a noite toda. Na manhã seguinte, o dia estava cinza. As flores já não tinham mais perfume, os pássaros já não cantaram mais e aquele delicioso cheiro do café da manhã havia perdido o sabor. Saiu pela rua tentando ver alguém. Ninguém. Ele estava só. Voltou para sua casa desesperado, com um nó na garganta que insistia em fazer companhia para um lágrima morna e salgada que escorria pelo seu rosto. Entrou em seu quarto, fechou a porta e encostou-se na mesma. Assim como fazem os artistas de novela, na esperança de que aquele movimento de ir escorregando lentamente até o chão, fizesse a dor desaparecer. Era uma sensação amedrontadora, vazia e dolorosa.

Marcos perdeu-se no tempo e espaço, perdeu o controle total da sua pouca sanidade que lhe restava. Fechou-se em seu quarto e em seu mundo vazio, um mundo surreal inundando pelas suas lágrimas que traziam consigo caos e dor. Passou algumas semanas sem sair de casa. Sons ensurdecedores na sua cabeça, mãos e corpo trêmulos e aquela dor que invadia o seu peito. A solidão estava consumindo, sem nenhuma piedade, a cor, o cheiro e o sabor dos seus - outrora maravilhosos - dias.

O tempo não passava para ele como passava para o resto do mundo. Em uma certa noite, depois de alguns meses agonizando-se em seus pensamentos carregados de angustia e remorso, resolveu sair de casa e dar uma volta por aquelas ruas vazias. Ruas vazias, frias e assustadoramente melancólicas. Não se sabe quanto tempo e nem por onde ele andou. A névoa que invadia aquele meio urbano combinado com a umidade daquela noite de inicio de inverno, completava a sua sina de andarilho solitário. Os segundos, agora, eram sentidos pelo seu corpo em eternidades. 

Ao dobrar a esquina de um bairro, um bairro daqueles que nunca havia passado por lá, ouviu, depois de algumas eternidades do vazio ensurdecedor que era o seu silêncio, uma voz recitando bem baixinho:

"Ele gostava de voar,
Ele gostava de mergulhar no ar.
Ele adorava tudo isso,
Quando ele ainda estava aqui.

"Um dia", disse o menino,
"Eu vou morar junto ás nuvens,
E voar todos os dias.
E apenas ser livre. "

E agora ele faz,
Com o Sol ou com a Lua.
Ele sempre vai voar.
Pois o menino está perdido - o menino está morto."

O rapaz paralisou, esqueceu-se por alguns momentos do seu silêncio ensurdecedor e prestou atenção naquela voz no intuito de entender o que estava acontecendo ali. O gato o avistou, fixou seus olhos amarelos flamejantes em sua direção. Subiu em cima do muro e andando para lá e para cá, como quem procura alguma coisa, continuou:

"Não precisarei sentir. Pelo menos não os sentimentos humanos. 
Estes são tão ruins, carregados de crueldades e angústias. 
Os vejo todos os dias de suas vidas destruindo-se aos pouquinhos, passivamente. 
Eu não suportaria tanta dor e sofrimento que causam a si mesmos. 
Como podem ainda ter forças para erguer a cabeça todos os dias pela manhã? 
É tanta agonia, é tanta ansiedade e palavras destrutivas que se alimentam de suas almas e corpos. 
Oh! Bastet, sinto calafrios na espinha só de pensar sobre isso. 
Eu, ainda que não seja, prefiro ser chamado de animal . 
Um ser irracional, livre e feliz."

Marcos aproximou-se devagar. Sentia uma mistura de medo e êxtase invadindo-lhe o corpo. Aquilo era impossível. Ele devia estar no auge da sua insanidade mental.  Não, realmente não podia ser verdade o que seus olhos estavam lhe mostrando. Não obstante, era. Aquilo era um gato preto - negro como a noite, ou como os seus últimos dias de melancolia - que olhava em sua direção. Um gato preto falante, recitando versos em cima de um muro cinza. Um muro tão cinza e velho, quanto as nuvens que o perseguia nos seus últimos dias de vida.

Um barulho qualquer na rua, fez Marcos acordar assustado. Foi só um sonho. Novamente aquele sonho. Seu corpo estava cansado, no entanto sentia uma sensação de paz na sua alma, mesmo com a boca amarga. Um tranquilo mal estar, poderia dizer. Virou-se na cama e tentou se localizar. Abriu os olhos assustado. O coração batia acelerado, sentiu um suor frio sem febre no corpo. Tentou acalmar-se, pois só podia estar delirando. Bem ao lado da sua cama, sentado no tapete velho - um tapete que havia ganho da sua mãe - estava um gato preto. Tão preto como a noite, com olhos tão amarelos que pareciam dois girassóis em chamas, fixando-o tão violentamente que paralisava o rapaz até a alma. O gato calmamente saltou sobre sua cama, aconchegou-se em suas cobertas, ronronou e dormiu. Então, Marcos soube naquele momento que seriam grandes amigos e que ambos teriam boas histórias pra viver juntos. Fechou os olhos e adormeceu novamente.